terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Gerundismo- Ano 2012

Jurando reparar mais na amplidão das janelas abertas.
Prometendo nunca mais dormir sem ter aproveitado suficientemente o dia.
Apostando cumprir sem culpa o mais irremediável dos desejos.
Sonhando em ter poucos, mas raros amigos.
Deletando os fantasmas que assombram os arredores da casa.
Reverenciando meus autores prediletos pela presença nas horas de tédio e medo.
Exigindo boa companhia para ouvir meus blues favoritos até o cair da tarde.
Encontrando nas derrotas os verdadeiros motivos para lutar.
Debochando de cada “não” sem uma razão bem convincente.
Tentando conciliar a agenda do ser com o fazer.
Transgredindo as roupas apertadas e as cobranças infundadas.
Projetando menos metas e arriscando mais no imprevisível.
Reconhecendo que sou tímida demais para declarar o amor que a poesia sublima.
Exigindo que o Cupido acerte a mira de uma vez por todas.
Rezando para que a medicina não me enlouqueça nos próximos dias.
Superando o receio de ver os armários abertos e a curiosidade pela geladeira dos amigos.
Prometendo arrumar religiosamente a cama, abrir as cortinas mais cedo e a não trocar o almoço por um mísero sanduíche.
Descobrindo que sou cômica demais para viver paixões avassaladoras.
Recusando a pagar mais do que as coisas valem.
Despachando os aborrecimentos para um lugar bem distante.
Fazendo as pazes com meu auto-retrato sem aquele desespero sem sentido.
Esvaziando a bolsa das inutilidades de sempre.
Declarando-me absurdamente apressada para ser feliz.


Leia também o Gerundismo que inaugurou 2011 em: 
http://portaodosfundos.blogspot.com/2010/12/gerundismo.html 

Invente sua lista de boas intenções, caro(a) leitor(a). Abuse dos verbos, dos tropeços linguísticos e reinvente-se no próximo ano.

domingo, 13 de novembro de 2011

Mito

A expressão do agora é acintosamente dura.
Nela, um rosto disforme - o meu -
e o desalento de olhos tão distantes – os seus.
Ah, Platão...
Ah, se tu soubesses
como amor e dor habitam ainda na mesma bat caverna
brincaríamos eternamente de fazer sombra de bichinhos nas paredes.
Certamente prestaríamos um culto romântico e divertido a Zeus
para que nunca nos deixasse faltar o céu embaixo dos nossos pés
para pularmos amarelinha nas estrelas de novembro até cansarmos,
adormecidos e apaixonados, nos aposentos de Afrodite.
Conversaríamos na linguagem lúdica
dos amores não correspondidos e mal resolvidos.
Não satisfeitos pelo corpo,
quiçá sublimados pelas metáforas de Camões.
E nos consolaríamos provisoriamente dessa angústia interminável.
Essa vontade de estar perto, se longe.
Ou mais perto, se perto.
Mesmo que o perto seja só a minha imaginação distorcida
refletida na parede encardida do meu quarto.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Sacudidelas 2

       O “Sacudidelas” é uma sessão desse blog com cara de consultório poético. Um despretensioso convite para se aconchegar ao divã da literatura através do exercício criativo e saboroso da intertextualidade.  
     Hoje, proponho que nossos analistas de luxo sejam Rubem Braga com a crônica “A casa” e Cora Coralina com o poema “Das pedras” (veja também o Sacudidelas 1, que trata da idealização amorosa, em http://portaodosfundos.blogspot.com/2009/10/sacudidelas.html) .

     Onde será que estão os tristonhos gritando seus amores não correspondidos? Onde eles teriam se refugiado para escrever seus versos ridículos? Em qual sobrado habitam?

     Quem sabe Cora esteja mesmo certa. Após chorar a demolição das frágeis paredes de nossos sobrados interiores, talvez seja possível erguer no lugar um castelo de aprendizados que atribua algum sentido ao que vivemos. Há como superar de forma sábia o absurdo existencial  e suscitar versos em meio ao cotidiano da dor? Cora diz que sim. 

      Está posta a difícil e diária escolha de cultivar um canteiro de flores que seja mais encantador que o jardim das acomodadas lamúrias. Vale a pena tentar, mesmo que nosso plantio seja de flores “amarelas e medrosas” (como diria Drummond) de tanto medo de ser feliz. 



A casa
Rubem Braga


Outro dia eu estava folheando uma revista de arquitetura. Como são bonitas essas casas modernas; o risco é ousado às vezes lindo, as salas são claras, parecem jardins com teto, o arquiteto faz escultura em cimento armado e a gente vive dentro da escultura e da paisagem.
Um amigo meu quis reformar seu apartamento e chamou um arquiteto novo.
O rapaz disse: "vamos tirar essa parede e também aquela; você ficará com uma sala ampla e cheia de luz. Esta porta podemos arrancar; para que porta aqui? Esta outra parede vamos substituir por vidro; a casa ficará mais clara e mais alegre." E meu amigo tinha um ar feliz.
Eu estava bebendo a um canto, e fiquei em silêncio. Pensei nas casinhas que vira na revista e na reforma que meu amigo ia fazer em seu velho apartamento. E cheguei à conclusão de que estou velho mesmo. 
Porque a casa que eu não tenho, eu a quero cercada de muros altos, e quero as paredes bem grossas e quero muitas paredes, e dentro da casa muitas portas com trincos e trancas; e um quarto bem escuro para esconder meus segredos e outro para esconder minha solidão. 
Pode haver uma janela alta de onde eu veja o céu e o mar, mas deve haver um canto bem sossegado onde eu possa ficar sozinho, quieto, pensando minhas coisas, um canto sossegado onde um dia eu possa morrer. 
A mocidade pode viver nessas alegres barracadas de cimento, nós precisamos de sólidas fortalezas; a casa deve ser antes de tudo o asilo inviolável do cidadão triste; onde ele possa bradar, sem medo nem vergonha, o nome de sua amada: Joana, JOANA! - certo de que ninguém ouvirá; casa é o lugar de andar nu de corpo e de alma, e sítio para falar sozinho. 
Onde eu, que não sei desenhar, possa levar dias tentando traçar na parede o perfil da minha amada, sem que ninguém veja e sorria; onde eu, que não sei fazer versos, possa improvisar canções em alta voz para o meu amor; onde eu, que não tenho crença, possa rezar a divindades ocultas, que são apenas minhas.
Casa deve ser a preparação para o segredo maior do túmulo.



Das Pedras
Cora Coralina


Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.

Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.

Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.

Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Crônica inaugural

     Amigos,
tenho o imenso prazer de compartilhar com os leitores desse blog uma espécie de alegria inaugural. Aqui está uma grande parcela da minha identidade autoral em construção: um olhar atento sobre o cotidiano como matéria-prima para o fazer literário.  
     Publico na íntegra a minha crônica intitulada “Sobre o poder de poetizar: sedução e encantamento” presente no livro “O Companheiro Indispensável”, lançado na especialíssima noite de hoje pela Editora da Universidade Federal de Uberlândia (EdUFU).
      O estar-no-mundo é um fascinante percurso poético. Recorramos a ele. Sempre. 
Patrícia 
Sobre o poder de poetizar: sedução e encantamento
     Sinto as palavras, mas elas não me pertencem. São atributos a que os poetas se entregam. O livro, essa entidade que ora repousa sobre as minhas mãos, revela sabor de mistério, agora palavrificado. O que, no momento, é verbo, antes fora realidade inacabada em constante luta entre reflexão, significado e forma. A frase, agora verso, antes pensamento inquieto.
     A pauta parece pronta. Frutificou o vocábulo antes flor. A letra é leve. As palavras, com ares preguiçosos, escondem-se traiçoeiramente no texto só para termos a chance de desvendá-las como quem revela, aos poucos, um segredo de sabedoria milenar.
    Ouço os poemas: existe uma sonoridade neles que transcende a palavra escrita e me comunica o que parece fora do alcance de qualquer tentativa de verbalização. Há uma sensação de como se eu, pobre leitora, pudesse apropriar-me de uma expressão lírica pelo simples desejo de querer ter falado aquilo que leio, mesmo sem nunca ter dito. Como se compusesse uma melodia sem nunca ter aprendido a cantar. Como se o mundo tivesse ficado melhor pelo simples fato de alguém o ter imaginado mais poético. Tenho a impressão de serem minhas as palavras ditas por outra boca. Uma espécie de salvação, de experiência mística, alquímica, atemporal.
     Desde cedo, aprendi a amar os poetas, a recebê-los em minha casa e a tomar com eles um chá. Sempre foram amigos, muito embora nunca tenha me encontrado pessoalmente com nenhum deles. Mas não tenho dúvida: eles estão muito próximos. Na minha mochila ou no meu quarto, elegantemente posicionados na minha estante. Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Cora Coralina, Ferreira Gullar, Mário Quintana, Rubem Alves, Adélia Prado... e tantos outros que um dia me encontraram e resolveram deixar comigo alguns manuscritos raros da sensibilidade humana. De Cecília, herdei o tempo nublado de solidão, silêncio e mistério. De Quintana, os quintais da irreverência. De Cora, a cor rústica da lenha ardendo no fogão. De Gullar, o preço do feijão. De Rubem Alves, uma reverência devocional pela vida. De Pessoa, a diversidade dos nomes. De Drummond, a procura da poesia. De Adélia, a fome.
     Nos últimos tempos, minha maior companheira tem sido Adélia Prado. Talvez ainda uma escritora pouco conhecida pelos leitores de poesia. Mulher fina, de natureza simples, mineira nascida num lugar onde se tece para não entristecer, sinuosa como as montanhas de sua terra-mãe. Na poesia adeliana, recolho o que parece me faltar, amenizo a dor que nem a medicina me ensinou a nomear e descanso da densidade científica do que obrigatoriamente tenho de conhecer.
     Adélia é leve e, por isso, a levo sempre. Ela é o único peso da minha bagagem que não estraga o prazer da viagem. Vitral que me revela o mundo com nuances jamais pensadas. Portadora de uma experiência religiosa estética e delicada capaz de recuperar o viço do que já parecia seco de tanta incredulidade existencial. Maternal como colo que acalenta o filho em uma noite fria de inverno. Nela, o cotidiano não tem amargura, só uma alegria contida, sem ilusões, meio santa, meio doida. O almoço da sua casa é trivial, como na minha mesa, mas nunca falta o tempero de uma musicalidade inspiradora, própria de quem se entretém com as felicidades miúdas que a vida proporciona a quem a aprecia com a devida calma.
     Adélia tem sabor de recordação. Hoje, a poetisa mineira trouxe raios luminosos que me transportaram para um tempo solar. Memórias de infância que biblicamente me curam do desejo de “ser grande”.
     Minha casa também tinha as cores do amanhecer e mamãe sempre poetizava o prato do dia. Era só arroz, feijão-roxinho e molho de batatinhas, mas nunca faltou cantiga na cozinha, hortinha de couve, jabuticabeira no quintal, nódoa de romã na roupa e joelhos esfolados. O simples ato da leitura tem o poder de evocar o arquivo morto das saudades como se pudesse eternizá-lo. Não fui eu que busquei a coincidência, ela veio por si mesma. Num instante, a jovem, de semblante sério e responsável, esqueceu-se dos desconcertos da vida e teve vontade de voltar ao tempo de ser criança e de balbuciar pequenas alegrias.
     Nas histórias de suas tias, comadres, amigas e vizinhas, Adélia me segura pela mão e leva-me a conhecer o sagrado e seus meandros divinos. Coisas que Deus preferiu confiar aos poetas, confidenciar às mulheres, de preferências às mães. As tortuosidades são mais bem compreendidas pelos corações que puderam viver a experiência de gerar alguém.
     Adélia é realidade geradora. É gente que recria o dia sem economizar no ato de amar, mesmo sendo o amor com poucos enfeites, magro e feinho. Ela descobriu que Deus mora fora dos limites de uma definição fria e racional, que Ele habita na “terceira margem do rio”, como um dia, enigmaticamente, declarou Guimarães Rosa.
    Mas Adélia não tem pretensões de mudar o mundo. Quer apenas o direito de ser cotidiana e de recolher, atrás das montanhas de Divinópolis, nos olhares solitários, nas bocas emudecidas, nos amores não provados, nas cores pouco tocadas, o material poético para sua arte, o grão de seus verbos, a rima de seu canto, a raiz de seus pronomes, a linguagem metafórica do seu discurso primoroso.
     A mim, simplesmente basta saber que ela existe e que misteriosamente tem visitado a minha casa, ora aquietando meus dilemas me fazendo adormecer, ora ancorando meu coração de vez no desassossego. Desconcertada, luto contra o sono para ler um último verso do poema “Filhinha” do livro “Oráculos de Maio”: “Deus não é severo mais. Suas rugas, sua boca vincada são marcas de expressão de tanto sorrir pra mim.”
     Apronto-me para virar a página. Mas virar para quê? O mundo poderia acabar nessa hora que eu estaria completa, assombrada com tanto poder de sedução e encantamento. 

sábado, 10 de setembro de 2011

Orfandade

Numa tarde de destinos quentes,
na clareira aberta pela insônia costumeira,
parei no centro de mim sem rumo.
Entre suores e calafrios alternados,
entre o vão do certo e o abismo do inesperado,
decidi pôr fim aos intermináveis porquês.
Quis chamar as coisas simplesmente de coisas
sem enumerá-las, classificá-las, semantizá-las...


À margem de seus próprios castelos imaginários,
a Razão perdeu sua condição de gélida senhora
e se fez Menina simples de flor e fita no cabelo.
Com semblante cansado repleto de susto e medo,
adormeceu silenciosamente farta de si.
Inconsolável.
Sem que ninguém decifrasse
as entrelinhas da orfandade.
Seu humilde e sonoro pedido de adoção.

sábado, 20 de agosto de 2011

Devaneios insones- O contorno estético

     Luísa deseja capturar as dimensões do tempo. Ela insiste em escrever por querer ter o direito de dizer quando fala. O seu áspero ofício exige um esforço que a consome lentamente como gravetos tenros numa fornalha incandescente. Viver é assumir uma condição de querer sentido sempre, de tirar do oco o fundo, de contar o incontável, de extrair do raso lago o mistério profundo, dos remendos os motivos secretos, de romper o silêncio insondável que não se explica com meia dúzia de palavras fáceis. Para ela, pensar é como ser arremessada ao caos. É como duvidar de todo riso que não seja libertador, de toda esperança que não conduza a catarse. É como se, a cada dia, tudo precisasse ruir por inteiro para ser reconstruído novamente, num vai-e-vem dialético repleto de angústia e contentamento. Um analisar instante a instante a própria geografia interior.

     Talvez seja melhor mesmo escolher a estética dos contornos da tristeza. Optar por não fechar os olhos para a dor inevitável nem se esconder do desespero que lhe espreita ali atrás da porta. Luísa insistia em contar as perdas e apontar cada marca deixada por elas na memória e também no seu corpo. Apontava orgulhosamente a pequena cicatriz na testa disfarçada pelos cabelos castanho-escuros. Dizia que aquilo era o resultado da ingenuidade infantil de uma criança que acreditava poder voar quando corria. Depois dos inúmeros tombos, acostumou a valorizar os joelhos esfolados. Ela falava, de forma bem humorada numa roda de conversa com alguns amigos, que após certas escolhas erradas começa-se a enxergar o mundo pelo ponto de vista dos que estão sempre atrasados. E completava o raciocínio argumentando que a sequência de notas ruins na escola ensina ao estudante como o dito “não-saber” pode ser uma experiência capaz de mover o mundo, tornando-o menos prepotente e mais sábio. De fato, o tempo filosófico que dedicava aos seus questionamentos era muito mais importante que a fórmula matemática que nunca iria usar.

     Dessa forma, a jovem acabou ficando com ares um pouco mais maduros. Chegava a ponto de se julgar uma mulher de quarenta anos em algumas ocasiões tamanha dissonância. Logo, pensava intimamente:

     - Um bom escritor precisa de uma alma mais velha para ser denso. No entanto, como explicar a natureza pueril da sua poesia?

     O fato é que para escrever um romance ainda faltava envelhecer bastante.

     Enquanto Luísa não resolve seus dilemas com o tempo, persiste intrigada pela possibilidade de dar voz ao que as pessoas querem dizer e não conseguem. Julga encantadora a capacidade de traduzir com beleza as dúvidas mais banais que as pessoas carregam nas suas bagagens e de como alguém fica interessante quando abandona antigas certezas ao longo do caminho para seguir adiante mais leve. Há nisso tudo um contexto frágil intrinsecamente epifânico e sedutor.

     Essa é a estética mais deslumbrante da arte. E ponto (de exclamação!).

sábado, 6 de agosto de 2011

Cantada

Conto as sílabas para caber no espaço,
nesse hiato dos teus braços.
Ditongo aberto teimoso em desrimar
meus versos metrificados
a redundantes verbos indiretos e sem ação.
Sofro de um amor coloquial impublicável
envergonhado de insinuações comuns...
Olha, você é mais lindo que o vento frio
dessas manhãs recentes.
Que os jardins coloridos que ainda estão por vir,
que o suco da fruta doce dispensando o açúcar,
que um aranha-céu iluminado em noite de insônia.
Meu romance para as horas de solidão.
Meu edredom de algodão.
Sabe, você é tão doce quanto um brigadeiro
roubado antes da hora da festa
e quase tão gostoso quanto o meu todinho.

sábado, 9 de julho de 2011

Tergiversar

Eu me perdi nos descaminhos
que de ti nunca conheci,
mas só de sussurros imaginei.
Achar-nos como bocas surdas,
muito melhor imaginadas que sentidas.
E me adiantei para o encontro
que só eu marquei.
Desenrolei argumentos em meu favor.
Versos frustros de tanto tergiversar.
Morri predestinada no poema
improvisado no guardanapo do café
que só eu bebi a espera de você chegar.
Cobrei em vão algumas palavras entranhadas
de tuas vísceras tão sadias
que de mim bem que podiam ter se ocupado mais

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Devaneios insones- A metade reacionária

     Luísa nunca acreditou que houvesse coerência no amor quanto mais algum grau de justiça. O conselho dos mais velhos (“Ainda vai encontrar alguém CERTO para você”) parecia uma assertiva que, de tão misteriosa, nem tentava desvendar.
     O amor chegou como o avesso de tudo que ela sempre acreditou. Uma espécie de negação racional, uma estranha sensação de falta de controle. Foi difícil acreditar que o amor não era linguagem matemática nem podia ser mensurado nas mágicas gotas/mim de uma prescrição médica. Para piorar, o amor também não era feito de socialismo nem suportava utopias platônicas. Tinha um incorrigível egoísmo, um desejo inescrupuloso, um jeito de caça-níquel fabricado para o jogador perder todo o seu merecido salário em uma só noite. 
     Os romances que Luísa adorava ler esconderam dela que o amor viria com todos os defeitos que condenava veementemente. O peso de provocação nas entrelinhas, a vulnerabilidade inata, a cobrança sem motivos, o pedido esquecido para ir embora, a incompetência de gestos, o tremor na voz, a inquietação das dúvidas. Sentia-se como se estivesse arruinando sua comedida vida financeira afundando-se em dívidas crescentes multiplicadas por complexas operações de juros compostos. Teve que aprender o exercício diário de engolir a seco os próprios conselhos e aceitar o temível fracasso com a desculpa fajuta de um acaso inesperado. Acabou admitindo predileção sem critério claro, fez concessões julgando-se cronicamente culpada. A jovem estava em meio ao mais completo e terrível desequilíbrio.
     Luísa só não esperava ter de admitir a contravenção. Burlou os horários, adulterou documentos, perdeu compromissos que tempos atrás jamais admitiria, criou esconderijos, aceitou o perigo e ligou mesmo quando já era tarde e não tinha nada de novo para dizer. Faltava só ameaçar com gentilezas e invadir a privacidade alheia.
     Pronto. Agora, já não faltava mais.
     Por fim, restou a brincadeira do populismo. Um pouco de atenção e um abraço já eram suficientes para fazê-la esquecer dos lastimáveis problemas do planeta. A fome na África não era maior que o seu desejo de dividir o mesmo saquinho de pipoca no cinema. O aquecimento global nem de longe a preocupava mais do que compreender porque os olhos dele eram capazes de produzir labaredas tão incendiárias em sua rotina monótona. No momento em que estivessem juntos, o Oriente Médio poderia entrar em guerra e o preço do barril de petróleo disparar no mercado internacional que nada seria mais caro do que o direito a um passeio a pé com ele, no fim de tarde, pela cidade calma e sem a fumaça dos barulhentos automóveis. Nenhum debate no congresso capaz de mudar os rumos da nação teria maior prioridade do que terminar uma discussão e corrigir a aspereza da palavra desmedida dita em uma hora de raiva. 
     Mas os pensamentos de Luísa ainda não foram totalmente revelados. A outra metade do seu amor reserva mais surpresas controversas.
     Era censura...
    
“- Veja bem o que você vai dizer.
- É melhor nem continuar. Você não sabe o que está falando. Um absurdo sem tamanho!”

     E também ditadura...

“- É melhor você não fazer isso ou vai se arrepender.
- Não, eu já falei que não. Francamente.”

     Luísa estava sem saída. Seu amor era tão imperfeito que se sentiria recriminada quando o confessasse publicamente. Os contos de fadas ainda eram fortes demais no imaginário coletivo para entenderem os argumentos de uma menina de vinte e poucos anos. O mundo era hipócrita o suficiente para rejeitar sumariamente a sua sinceridade. Por medo, decidiu viver o amor em segredo. Reacionário, de tanto silêncio.

terça-feira, 14 de junho de 2011

O dia do poeta de todos os dias

Para encerrar como se deve a noite dessa segunda, que tal Fernando Pessoa?

Vou explicar o motivo do convite. Hoje, dia 13 de junho, se estivesse vivo, o genial poeta português estaria completando 123 anos. 

Um bom leitor de poesia certamente não pode deixar essa data passar em “brancas nuvens”. Ela merece uma comemoração especial. Por isso, selecionei 3 trechos de alguns dos meus poemas preferidos do autor. Os dois primeiros são versos assinados pelo próprio (Fernando Pessoa, ele mesmo) retirados da famosa coletânea “Cancioneiro”. Já o terceiro é um trecho do poema “Tabacaria”, talvez um dos mais conhecidos de Álvaro Campos. Aproveite a noite fria, tome um chá, aqueça-se de lirismo e  esqueça a pressa.  

“Amamos sempre no que temos
O que não temos quando amamos.
O barco pára, largo os remos
E, um a outro, as mãos nos damos.
A quem dou as mãos?
A Outra.
Teus beijos são de mel de boca,
São os que sempre pensei dar,
E agora a minha boca toca
A boca que eu sonhei beijar.
De que é a boca?
Da Outra.
(...)”

"(...)
PAIRA à tona de água
Uma vibração,
Há uma vaga mágoa
No meu coração.
Não é porque a brisa
Ou o que quer que seja
Faça esta indecisa
Vibração que adeja,
Nem é porque eu sinta
Uma dor qualquer.
Minha alma é indistinta,
Não sabe o que quer.
E uma dor serena,
Sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!..."

“ (...)
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
(...)”

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Recomendo

     Não tenho a menor dúvida de que literatura é o mais puro rock and roll. Por isso, o blog novamente lança-se no universo do cinema, uma arte com uma capacidade narrativa única, e arrisca uma sugestão de filme com esse tema.
    
Simplesmente impressionante. Essa é a palavra que descreve a minha sensação imediata ao assistir hoje o documentário “When You're Strange - Um Filme Sobre o The Doors”. No longa-metragem o diretor Tom DiCillo, com a narração do ator Johnny Depp, apresenta cenas de arquivo de ensaios, de shows e de momentos mais íntimos da banda "The Doors", com destaque ao polêmico vocalista Jim Morrison. O filme começa com a formação do grupo em 1965, quando estrearam no palco e lançaram o primeiro álbum, até o fatídico dia da morte do cantor. Trata-se de um importante registro cinematográfico da turbulenta carreira de uma das mais importantes e históricas bandas de rock de todos os tempos.
     Vale a pena conferir a pegada jazzística da bateria de Densmore, a mistura do clássico e do blues do tecladista Ray Manzarek e o estilo flamenco do guitarrista Robby Krieger, autor do primeiro single do grupo. Fica bem claro a marca dos Doors: piano, guitarra, bateria e baixo dando ao ouvinte o direito de escutar as letras. Isso claro sem deixar a desejar na energia que marca o gênero. Um retorno imperdível ao universo do rock dos anos 60.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Erro médico

Eu examinei seu pulsar
mas ele não era meu.
Você nem soube do risco
      (De vida? De morte?Acaso ou sorte?)
Perigo... ( ! )
Que eu corri.
Das vezes que eu perdi o ar.
Grave... ( !! )
Quase morri.
Das paradas... ( !!! )
Na sacada, na calçada, na estrada.
Sem nenhum socorro... ( !!!! )
Fibrilando, remoendo uma única frase,
adoentada de dar dó.
Como medida heróica, mandei um bilhete.
Fluxograma completo... ( !!!!! )
Cansada de ser paciente
Negligenciada... ( !!!!! )
num leito de corredor
PS.: preciso dos seus cuidados.
É urgente ( !!!!!! )

domingo, 8 de maio de 2011

A mãe do dia

  
  Infância

Ampara-me com o teu olhar
para que eu retome a graça
de ser criança outra vez.
Quero voltar ao teu colo,
onde o mundo parecia ser sempre mais seguro.
Dá-me do teu afeto desprendido
para que eu descubra o dom
de tornar as pessoas mais livres.
Olha-me com tua suave calma
para que eu esqueça
os desconcertos dos meus dias.
Deposita tuas marcas
sobre a minha ciência adulta,
com o intuito de que eu volte
a balbuciar pequenas alegrias.
Que seja eterna essa tua materna forma
de pousar as mãos sobre os meus cabelos
e depois dizer repetidas vezes
as mesmas histórias.
Que tua voz doce e teu abraço acolhedor
me façam esquecer o barulho das portas que se fecham.
Que tua serena face encontre esse meu rosto
tão aflito por tão pouco.
E depois, diante do fascínio da tua presença,
recolha-me no silêncio do teu útero,
para que eu possa nascer de novo
e, finalmente, retornar à alegria
do amor sem palavras.

domingo, 1 de maio de 2011

Moldura

Você ainda dormia profundamente
quando eu decidi traçar nossos destinos.
Peguei uma caneta de azul desatino
e liguei delicadamente
os pontos sardentos das suas costas.
Entre uma linha e outra,
tatuava hieroglifos no seu corpo
povoando seus sonhos
como você fazia cócegas nos meus.
Era uma espécie de vingança sádica.
Um polígono de muitos lados
que coubesse só você e eu.

[A autora em um momento de inspiração súbita no começo de tarde enquanto tentava estudar para a Prova de Neurologia. É grave, doutor?]

domingo, 24 de abril de 2011

Devaneios insones- Flashforward

     Luísa insistia em pensar em finitudes ao abrir a janela. O “felizes para sempre” soava agressivamente falso. Era como se estivesse sendo passada para trás como nos livros e filmes açucarados de sua adolescência. Agora aprendera a viver como uma leitora compulsiva que só começa a leitura de um livro depois de ir direto para a última página. Só depois de conhecer os desfechos das histórias volta para a página inicial e se sente completamente segura para começar a devorá-las.
     Luísa tinha tantos medos que aceitou a repartição pública como metáfora da vida. Batia ponto diariamente com o mesmo entusiasmo com que programava o roteiro para o feriado. Os créditos finais do filme eram sempre mais interessantes que o beijo cinematográfico do último sucesso do cinema. Fazer novas amizades era como antever a despedida não planejada. Beber, por sua vez, não compensava porque no primeiro gole já podia sentir a ressaca arrependida da manhã seguinte. A paixão doce pelo garoto da escola dava lugar à aspereza da imagem dele assinando os papéis do divórcio e comprando uma passagem para o exterior. De modo dramático, a abandonada Luísa se imaginava com seu inglês medíocre sentada sozinha no sofá. Ela e o vazio gigantesco e contraditório de seu apertado quarto e sala. Por fim, decidiu se afastar da companhia das pessoas para não ter que iniciar nada que já estivesse fadado a acabar. E assim viveu por um longo tempo, sem nada começar.
     Ocupava-se somente em secar as lágrimas enquanto escolhia a dedo em seu arquivo pessoal as letras mais melancólicas de Chico Buarque. Trancada no quarto não havia porque temer a cafonice. Ela sentia sua alma triste traduzida nos versos de “Carolina”, composição de Chico Buarque eternizada na interpretação de Caetano Veloso.

“O tempo passou na janela
Só Carolina não viu...”

     Talvez ainda haja um jeito de consolar Luísa de forma que suas olheiras não sejam tão definitivas como se costuma imaginar. Quem sabe o seu lamento não seja uma desistência completa e sua história tenha contornos mais felizes que o famoso samba da MPB. Quem sabe ela, novamente debruçada na janela, repare em outros detalhes, eleja outras cenas e até ameace um discreto sorriso para si mesma.


[Tecla SAP: Flashforward é uma técnica utilizada no cinema e na literatura que consiste em interromper a seqüência cronológica de uma narrativa ao intercalar eventos ocorridos num momento futuro como, por exemplo, quando num filme uma cena revela parcialmente algo que ainda vai acontecer.]

terça-feira, 12 de abril de 2011

Derradeiro blecaute

Era cedo quando apagaram-se as luzes.
Com a penumbra os desejos se aguçam.
Vozes impróprias suspiram e soluçam.
Corpos incandescentes consumidos sem dó.
Cinzas encarnadas de amor,
subjugadas de medo, entranhas da dor.
Exageros do eu só,
reduzido a ínfimo pó.
Decretado apagão.
Em tempos de racionamento vão,
qualquer clamor já é açoite.
Seja dia, seja noite.
Está posto o blecaute.
Sem tardar, uma luz irrompe na cidade tenebrosa.
Descobri um resquício de claridade no ar
É aceso o luar.
Vi seus olhos... seus olhos...
Repito e aponto devagar.
Decidi por fim neles morar
e nunca mais ter que anoitecer.

sábado, 9 de abril de 2011

Os tons da tragédia no RJ e nós

     Há cerca de três dias fomos assaltados pela notícia de um agressor que entrou em uma escola no bairro de Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, e executou sumariamente  doze crianças em suas salas de aula. 
     Eu gostaria de entender os acontecimentos. Não falo de respostas para perguntas banais. Para isso, já basta a imprensa especulativa movida por aquele sensacionalismo mórbido que costumamos ver em ocasiões como essa. Penso sim na possibilidade de descobrir um jeito capaz de consolar as mães das vítimas e, se fosse possível, restituir vida aos corpos franzinos brutalmente assassinados. 
     Eu gostaria que meninos não morressem antes da hora. Que mães não tivessem que inverter a ordem natural da vida sepultando seus filhos, seja as crianças mortas na barbárie de Realengo ou os jovens que compõe as estatísticas frias das páginas policiais vitimados diariamente pelos acidentes de trânsito ou pelo tráfico de drogas no Brasil.
     Queria que todos nós desejássemos coletivamente o sonho de concretizar uma escola, ao mesmo tempo, encantada e possível. Lugar em que prevalecesse o respeito às diferenças, que a liberdade ganhasse asas vigorosas e se educasse para o amor. E, acordados, víssemos uma multidão de pessoas dispostas que, consternadas com a brutalidade dos fatos recentes, tivessem a atitude corajosa de repudiar a violência estampada nos jornais multiplicando gestos anônimos de ternura e bondade em seu cotidiano.
     Não sei exatamente o motivo, mas ao acompanhar os noticiários dos últimos dias me recordei várias vezes de Pietá e senti vontade de fazer o que seus traços sugerem. A obra esculpida pelas mãos sensíveis de Michelangelo é a imagem da dor materna imensurável, que não se localiza nem se explica com racionalidade. Dores pungentes como a que Pietá retrata são aquelas que nos retiram a fala e nos dificultam as respostas.
     Certamente existe perto de nós alguma tragédia em menores proporções que cabe a nos socorrer. O jovem aparentemente sem motivos que se suicida enforcando-se no banheiro de casa certamente não decidiu se matar da noite para o dia. Ele foi colocando a corda no próprio pescoço de maneira lenta e, de algum modo, quem esteve a sua volta acabou negligenciando sua tristeza. Não tenho dúvida de que a violência em medidas menores que permitimos em nosso cotidiano, seja a agressividade no trabalho, o palavrão que soltamos quando alguém nos fecha no trânsito, as piadas de mau gosto que toleramos, o bullying nas escolas; tudo isso contribui para as grandes tragédias, das quais nos envergonharemos tempos depois. Bem sabiamente o poeta fluminense Eduardo Alves da Costa em “No caminho com Maiakóvski" nos alertou para o risco que corremos:



“[...]
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
[...]”



        Por isso, escolhi para essa noite melancólica de sábado uma reflexão silenciosa e um pouco de  esperança embalada pela belíssima canção "Somewhere Over The Rainbow” de Chet Baker.   Resta saber o que queremos aprender com as tragédias. Que a morte de nossas crianças e jovens não seja em vão, mas nos ajude a amanhecer. 
      Por fim, desejo que trompete do famoso clássico do jazz faça companhia aos seus pensamentos tanto quanto fez aos meus.    



sexta-feira, 1 de abril de 2011

Devaneios insones- O Indizível (Parte II)

     Exatos 9 dias desde que Luísa viu Theo pela última vez. Ele ficou a alguns metros de distância e certamente nem percebeu como tinha sido alvo da atenção dela a noite inteira. Ela, por sua vez, sabia dizer detalhes minuciosos da camiseta que ele vestia, do aspecto da barba por fazer, do cabelo com um charmoso ar despenteado, da falha na sobrancelha, da maneira como gesticulava com a mão contando histórias para os amigos, do símbolo do time de futebol estampado no chaveiro do carro.
     Luísa sempre foi obsessivamente minuciosa. Via os homens como quem escreve uma crônica. Reparava, conferia e depois relia tudo novamente como se estivesse revisando uma narrativa para publicação. A vida para ela dependia de incessantes contextualizações. A busca de sentido era praticamente um imperativo categórico. Precisava responder se era para hoje, se já estava pronto, se a chuva serviria de desculpa para entrar, se podia ficar até mais tarde, se a brincadeira era uma indireta ou se o colo significava cafuné.
     Ela havia mudado relativamente pouco nos últimos anos. Suas mãos ainda continuavam trêmulas da mesma forma que na época em que sua mãe a deixava na porta da escola. Já Theo era o oposto. Rapaz falante, seguro e bem-humorado. Quanto à Luísa, chamava atenção que ela passara a grifar menos os trechos que julgava marcantes nos livros que lia. Ela se defendia dizendo não se tratar de insensibilidade. Continuava tão emotiva quanto antes, só que, ultimamente, admitia estar apenas se surpreendendo menos. Tinha finalmente adquirido um jeito mais calmo de passear pelas frases, de apreciar as entrelinhas, o contorno das letras e a musicalidade das palavras.
     Já a timidez de Luísa continuava incorrigível. Era uma espécie de relógio analógico que a fazia chegar sempre atrasada e ficar escutando o ranger da porta se fechando lentamente com ela de fora. O fato é que o amor só a alcançava quando o templo já estava em ruínas. Seu coração era castelo pomposo sem rei, terreno baldio, correspondência devolvida sem antes cumprir o papel de amenizar a solidão da resignada remetente.
     Esquecer era um verbo pouco provável em sua vida. Para não viver demasiadamente amargurada em possibilidades irreais costurava bordados sobrepostos às desilusões e os escondia em baús de segredos invioláveis. Todos concordavam que duas sessões de cinema uma vez por mês e uma vida sem revelo era muito pouco para alguém ainda tão jovem.
     Theo representava para Luísa um Olímpico, o primeiro namorado da famosa protagonista clariceana em “A Hora da Estrela”. Theo tinha o poder de fazer Luísa ficar grávida de futuro. Com ele vinha o duelo entre a juventude ingênua de uma doce Macabéa atravessando a avenida da morte em busca do amor anunciado pela cartomante e a mulher contemporânea-problemática prestes a entrar em crise nos lugares mais improváveis.
     Só não queira cobrar maiores explicações da pobre menina. Luísa ainda não sabia dizer, só sabia sentir.

domingo, 20 de março de 2011

Devaneios insones- parte I

     Luísa nunca foi muita afeita a sonhos demorados. Sempre teve um pouco de medo do que a esperava no dia seguinte quando os primeiros feixes de sol penetrassem pelas frestas da janela de seu quarto. Abrir os olhos sempre gerava um estranhamento. Era como se estivesse obrigada a um compromisso difícil de ser cumprido. Alguns pensavam que se tratava de uma recusa à frustação. Talvez se amedrontasse um pouco com o seu desajeito em lidar com escolhas difíceis no intangível mundo do real e, por isso, tenha preferido viver num lugar de sombra e neblina constantes.
     Suas manhãs eram feitas de um ar rarefeito. As olheiras disfarçavam-se no esfumaçado da maquiagem mal tirada da noite anterior. De fato, a menina morena de olhos acastanhados tinha uma beleza comum. O peculiar era mesmo o costume de viver de sentimentos anteriores e cumprir um ritual secreto de analisar seus traços disformes olhando-se cheia de autocrítica através do espelho do banheiro. Ela nem precisava de inimigos. Dava conta do recado sozinha e com uma maestria invejável.
     Havia um mistério discreto disfarçado naqueles olhos de senhora. Uma espécie de mulher oblíqua, incongruente, sinuosa. Há algum tempo, teve-se notícia de que ela desejava morar em algum lugar distante, que havia se cansado da inadequação. Queria reiventar uma outra identidade. Quem sabe uma oriental em Paris ou uma latina em Nova Iorque. Por hora, contentar-se-ia com aquele despertar possível. Era preciso criar coragem para escovar os dentes, lavar o rosto, torcer a maçaneta da porta, cruzar a rua e cumprir os compromissos inadiáveis da agenda.
     O jazz ensolarado do famoso disco de Miles Davis, “In a Silent Way”, vinha suavemente do quarto. Tinha por função amenizar a dureza dos pensamentos daquela manhã cinzenta de outono. Era um som baixinho para não correr o risco de acordar a cidade que ainda dormia profundamente.     
     Acabara o pó de café. A geladeira traduzia a solidão da casa. Sobraram somente duas maçãs murchas entreolhando-se esquecidas do dia em que pareciam docemente palatáveis na prateleira do supermercado. Dentre as poucas plantas da casa, destacavam-se as recatadas violetas roxas. Coincidência ou não, a matiz mais conhecida da paixão e da dor. Apesar da cor dramática, ainda era preciso muito mais para se colorir todos os cômodos da casa. A falta de móveis nos ambientes deixava lacunas e incômodos irreparáveis.
     Já quase amanhecendo, a jovem aproveitou a pouca disposição que ainda possuía  para separar alguns papéis de que precisaria mais tarde. Nem a loucura do seu quarto a assustava mais. Tudo ali parecia contraditório. Sapatos, roupas, fotos e livros em uma natural desordem existencial. A essa altura até o jornal do dia já havia envelhecido de tanto tédio e passado.
     07:15 no relógio do microondas. Apenas três horas de sono e uma semana inteira pela frente. O bip do eletrodoméstico avisava que o leite já estava morno. Só faltou mesmo aquecer o coração dos desamparos da madrugada. No entanto, não se iludiria pensando que pudesse ser diferente dessa vez. Não havia tempo para se lamentar. Luísa já estava muito atrasada.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Samba com bocado de tristeza

     A aflição termina quando as palavras perdem a importância semântica. Quando deixam de existir porquês decentes e explicações plausíveis para justificar a ausência. Quando a distância subverte as complexas combinações geográficas e passa  a existir somente a intersecção dos meridianos que mais importam. Se assim fosse, ninguém precisaria mais ligar para o fato da festa ter acabado, afinal as luzes do recinto se apagariam para outras tantas se acenderem. O coração-acompanhado subiria a serra e continuaria aquecido por samba, mesmo tendo o carnaval chegado ao seu fim.
     O fato é que nunca precisei ocultar as entrelinhas, a lembrança que o poema me traz, a explícita autoria para o verso. Nem teria talento o suficiente para disfarçar. O desejo, com data e hora, já ficou confesso num rascunho de papel em lugar de fácil acesso. O que sei até agora é que o corpo reclama o encontro, a presença tocável, o calor da voz, os dedos quentes entrelaçando nos meus quando a noite está fria, a rua comprida e assunto teima em acabar no meio do caminho.
     O jeito é saber lidar com o que sobrou da semana para decifrar os últimos acontecimentos. A ameaça de verbalização, o tremor na fala quase sussurada, o gesto inacabado, a beleza da tristeza entremeada de risos e autocrítica. Chego a pensar que o amor de Pierrot só é comovente e belo porque é igualmente triste e improvável. 
     Depois da viagem de alguns dias, o retorno para casa. Só me resta reunir resignadamente as correspondências na caixa do correio como quem retoma a banalidade do cotidiano. A rotina já imprimiu compulsoriamente suas cobranças e me obrigou a abastecer os armários da casa. Na simplicidade da lista de compras, volto a sobreviver de versos longos e motivos breves. Deixo o supermercado, após o hábito antigo de fazer compras à noite, com sacolas plásticas fartas de realidades que desconheço. Só espero que,  mesmo embrulhada de diferentes modos, a felicidade me venha sempre, ainda que em medidas menores.

[21:00 horas, noite de quarta-feira de cinzas, a autora configurando memórias em meio a afazeres domésticos ao som de "Samba da Benção" do mestre Vinícius de Moraes]

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O olhar de Scliar e a medicina

     Os últimos domingos têm sido mais sombrios que o comum. Nesse, ao ler o jornal pela manhã, deparei-me com a triste notícia do falecimento do escritor gaúcho Moacyr Scliar.
     A morte parece ter a capacidade de nos fazer sentir em absoluto estado de desamparo. É uma solidão irremediável que desata o fio da memória.
     Recordo-me como Scliar foi decisivo na minha escolha pela medicina. Conheci sua obra lendo “A face oculta”. Um livro com uma coletânea de quase 500 crônicas veiculadas na imprensa na década de 90 em que os bastidores da prática médica são narrados com uma verdade crua, um humor leve e uma poesia sutil capazes de deixar encantado qualquer jovem indeciso quanto ao futuro profissional. Comigo, não foi diferente. 
     O escritor-médico esteve comigo no cursinho. Repousava serenamente sobre a minha mesinha de cabeceira quando, à noite, visitava-me alimentando meu sonho distante. Era como se a leitura descompromissada valesse por uma sessão de massagem. Uma espécie de convite ao corpo para descansar das monótonas horas de estudo. Ele também esteve presente no meu primeiro ano de faculdade me ajudando a acalmar meus dilemas e a cumprir meu doloroso e particular ritual de passagem pela anatomia. 
     Em 2008, tive o prazer de vê-lo em Uberlândia na 1ª Festa Literária da cidade. Falava do seu livro o “Mistério da Casa Verde”, uma belíssima releitura de “O Alienista” de Machado de Assis. Conversava sobre sua arte como algo trivial enquanto eu, na ponta dos pés, o via lá do fundo da sala sem estar totalmente ciente do quanto vivenciava um momento raro. Naquele instante, me peguei novamente divagando sobre a possibilidade de conciliar os rumos da medicina com a poesia, ambas em passos iniciantes.
     Ainda bem que o autor tem o poder de aliviar a saudade dos leitores pelo atemporalidade de sua obra. Consolo-me relendo a frase que, um dia, ajudou-me a encaminhar minha escolha profissional: 

“... a medicina não é uma profissão. É uma forma de viver, à qual não se chega sem uma profunda transformação pessoal; sem dolorosos, mas salutares, ritos de iniciação.”
Conto “Rito de iniciação”, extraído do livro “ A face oculta”, 2001, p.22


     Fica aqui o convite para conhecê-lo melhor. Aos que já o conhecem que revisitem sua obra.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Mineiridades

O sol esconde atrás das montanhas
e entrete o tímido habitante das gerais.
Sem mar, o itinerante divide os retalhos
de dores lampejos de arte.
Finos teares de sombra, cores de tarde.
O falar provinciano reconcilia os opostos,
de Brecht ao mais convicto dos liberais.
Distrai com queijo e goiabada os dispostos.
Viola, causo, gargalhada e piada.

O menino veste adulto,
o errante pede indulto,
o amante promete o mundo,
estranho vulto da hora instante.
Quer o culto ao sábio tempo de nascer dilema,
conselho de um certo Guimarães,
que me fez colher Rosa
nos prados de Adélia,
nos versos de Drummond.

O riso discreto espreita atrás da porta,
entreaberta de tamanha espera.
Há uma serena lágrima que acende a fogueira.
Eu madrugando no clarão da ribanceira,
ao som do cancioneiro popular
embalado em noite estrelada.
Romanceiro narrando o lírico,
ser onírico em escala semitonada.

Os mineiros se perdem nos mistérios
que nem seus ricos minérios conseguem pagar.
O detalhe sutil ressurge para reparar
a beleza altiva da estrada real,
pouco afetada pelo falso ideal
de um controverso inconfidente feito herói.
Velho Chico, choro-rio agonizante,
gemido pugente que dói,
Seca escassez, contido em barragens, ganância dos patrões.

As lavadeiras alvejam roupas nos quintais.
De cá, o jovem desassossega-se lendo jornais.
O doce caseiro satisfaz a boca
enquanto a alma se deleita na tristeza
divertindo-se com o tom barroco dos vitrais.

A arte também tem seus frágeis cristais.
Sentada na calçada,
alcoolizada de indecifráveis ais.
Fingindo-se mal-amada,
julga-se útil e fútil, tudo e nada.
Sentencia-se suportável e, às vezes, não.
Bem-vindo ao interior das bagagens.
Identidade plural de Minas Gerais.

[A autora mineirando a noite tipicamente brasileira]

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Perdendo tempo

     Nem sei explicar minha obsessão pelo tempo. Sentar ao lado de pessoas capazes de narrar as causas dos sulcos impressos no próprio rosto, a história que justifica as lágrimas tímidas que ninguém viu nem consolou, as memórias que o amor sussurra sem pressa em hora tarde, a razão da cicatriz saliente na pele. Quero viver da substância dos dias, do empenho diário, da inquietação que amadurece a hora presente. Engana-se a si mesmo quem não pensa no quanto de choro é preciso para sustentar o riso que abre uma noite de domingo.
     Conto os dias nos dedos como quem faz um ritual de passagem. Pinto o calendário com matizes do entardecer. Vejo as estações mudando de forma e os raios do sol desenhando no céu as verdades que eu ainda não aprendi a enfrentar. Mas já não temo mais as contradições.
     Volto sempre ao passado e resgato o som que, um dia, esteve na boca dos meus avós. Gosto dos móveis antigos, da beleza escondida atrás dos vitrais coloridos, do tecido emaranhado da rede que eu construí com as minhas perdas, da dúvida que existiu antes da conclusão ser declarada, do ensaio, dos preparativos, da bagunça nonsense do quarto mantendo certa leveza para os compromissos diários, da pausa na corrida para amarrar o cadarço do tênis.
     Só não corro o suficiente para fugir da tristeza que me cerca. Também nem tenho tamanha pretensão. Ao contrário, chamo-a para conversar, nos olhamos sem subterfúgios, discordamos e, algumas vezes, até agradeço pela inspiração que ela me trouxe antes de partir. De uns tempos para cá, aprendi também a guardar seus bilhetinhos numa caixinha de madeira na mesa de cabeceira ao lado da minha cama. Certos dias, pego de novo nas mãos aqueles rascunhos guardados e limpo a poeira delicadamente como quem possui uma relíquia de valor inestimável.
     Acho poética a melancolia. Ela possui contornos estéticos frágeis, serenos e delicados. Possui também um ar de inutilidade que me comove.
     Não tenho pressa. Busco o que tem gosto de espera, os poemas que demoram a nascer, o que antes fora promessa e desejo secretos. Quem sabe ainda chegue o dia em que eu tenha plena coragem de assumir em público cada fracasso a ponto de reconhecer que sou muito mais fruto deles que das conquistas que julgo ter.
     O fato é que eu continuo acreditando ser melhor economizar meses a fio antes da tão esperada compra. É sempre mais circunstancial a liquidação. Bom mesmo é namorar a vitrine.


[A autora pensando no post mais desocupado que já escreveu numa tarde de domingo] 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Anatômica

À noite, os corpos parecem estranhos.
Os joelhos exibem estalidos metálicos.
Desejos e receios articulam-se em atritos desmedidos.
Os pêlos arrepiam-se subentendidos
como se não houvesse explícita autoria
para a discreta sensação ocorrida.
Mas isto só os olhos mais atentos reparam.

Ao exame, a descrição parece banal.
Rubor facial,
marcha atípica e suspeita,
tremor fino,
extremidades frias e sudoréicas,
palidez de susto,
mucosas secas a espera de cor.

O ar flui pela via corpórea
enquanto aérea a anatomia antecipa
a palavra calada,
a boca emudecida,
o coração descompensado.
Praticamente um sopro audível
em substituição à fala.

Palpável só mesmo o que crepita, irradia e incendeia.
Em altas chamas,
veias e velas em febril decomposição poética.
De épico só mesmo os terremotos
na topografia incerta do precórdio.
Quase desdobramento de um som tardio
a desafiar o mais moderno dos estetoscópios.

É certo.
O corpo ainda prefere manter o segredo
dos sibilos misteriosos do peito
tanto quanto o mediastino abriga
o impreciso desatino amado
do que não foi combinado sentir
em sintomas tão agudizados.

Em meio a ossos e nervos
destaca-se só o que é
de tenra aparência frágil
até o momento que eu me desintegre,
de assombro em assombro,
em mil pedaços esmagados.
E me pegue de novo
remexendo nos mesmos escombros,
restos dos estranhamentos do meu corpo
à espera de interpretação.

[A autora tentando fazer uma tímida descrição anatômica, semiológica e poética daquilo que se costuma chamar de amor]

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Á meia luz de domingo

     Nunca tive a pretensão de entender a razão da minha falta de ar, dessa sensação de náusea existencialista, desse choro contido que nem sequer foi capaz de molhar o travesseiro.
     Não há consolos fáceis capazes de me mover da tristeza de um início de domingo. Aliás, um dia definitivamente repleto de poesia. Os deprimidos sabem muito bem disso. Dia de visita repentina em que a saudade aperta a campainha e se oferece como companhia. Chega soberana, abre a porta, monta a mesa, serve o jantar, escolhe a música e acende o olhar feito lareira. De repente, já é hóspede acomodando-se sem pedir licença.
     Difícil mesmo tem sido suportar esse mundo de pessoas falantes, de sorrisos sempre fartos, sem grandes espantos ou terríveis dilemas para enfrentar. Não há lugar para o silêncio e a solidão nas casas por aí. Ninguém mais suporta o limite de não saber o próximo passo ou a possibilidade de admitir as causas (ou a falta delas) para os apertos do peito.
     Na verdade, o fato é que poucos têm coragem o suficiente para mostrar o coração desprotegido, a aspereza da superfície, os ecos doídos do que é oco, o irremediável tédio diário, o cansaço sem motivos aparentes, os anônimos acontecimentos que nem mereceram um registro fotográfico estampado em algum álbum virtual.
     Mesmo à meia luz do ambiente, a penumbra não esconde a desilusão. A solidão acomoda-se na cadeira enquanto bebe algo mais forte para suportar o amargo da madrugada. Até quis fazer um sambinha bem baixinho como quem morre aos poucos no ato de viver cantando, mas desistiu pela desafinação dos olhos de recriminação dos contentes. Julgou-se cafona e recolheu-se num canto. É que eles estavam “felizes” demais e faziam tanto barulho que até sucumbiram os suspiros tímidos e a rima infante e despretenciosa do poeta aprendiz e tão ensimesmado de dor.     
     Se a poetisa mineira de Divinópolis me permitisse uma licença poética, eu reinventaria os seus versos:

"A uns, Deus quer felizes,
a outros, quer escrevendo".
(Adaptação livre dos versos do poema "Ex-voto", de Adélia Prado)


[A autora tecendo para não entristecer demasiadamente enquanto ouve, pela enésima vez, o álbum “Tua” (2009) de Maria Bethânia]