domingo, 24 de abril de 2011

Devaneios insones- Flashforward

     Luísa insistia em pensar em finitudes ao abrir a janela. O “felizes para sempre” soava agressivamente falso. Era como se estivesse sendo passada para trás como nos livros e filmes açucarados de sua adolescência. Agora aprendera a viver como uma leitora compulsiva que só começa a leitura de um livro depois de ir direto para a última página. Só depois de conhecer os desfechos das histórias volta para a página inicial e se sente completamente segura para começar a devorá-las.
     Luísa tinha tantos medos que aceitou a repartição pública como metáfora da vida. Batia ponto diariamente com o mesmo entusiasmo com que programava o roteiro para o feriado. Os créditos finais do filme eram sempre mais interessantes que o beijo cinematográfico do último sucesso do cinema. Fazer novas amizades era como antever a despedida não planejada. Beber, por sua vez, não compensava porque no primeiro gole já podia sentir a ressaca arrependida da manhã seguinte. A paixão doce pelo garoto da escola dava lugar à aspereza da imagem dele assinando os papéis do divórcio e comprando uma passagem para o exterior. De modo dramático, a abandonada Luísa se imaginava com seu inglês medíocre sentada sozinha no sofá. Ela e o vazio gigantesco e contraditório de seu apertado quarto e sala. Por fim, decidiu se afastar da companhia das pessoas para não ter que iniciar nada que já estivesse fadado a acabar. E assim viveu por um longo tempo, sem nada começar.
     Ocupava-se somente em secar as lágrimas enquanto escolhia a dedo em seu arquivo pessoal as letras mais melancólicas de Chico Buarque. Trancada no quarto não havia porque temer a cafonice. Ela sentia sua alma triste traduzida nos versos de “Carolina”, composição de Chico Buarque eternizada na interpretação de Caetano Veloso.

“O tempo passou na janela
Só Carolina não viu...”

     Talvez ainda haja um jeito de consolar Luísa de forma que suas olheiras não sejam tão definitivas como se costuma imaginar. Quem sabe o seu lamento não seja uma desistência completa e sua história tenha contornos mais felizes que o famoso samba da MPB. Quem sabe ela, novamente debruçada na janela, repare em outros detalhes, eleja outras cenas e até ameace um discreto sorriso para si mesma.


[Tecla SAP: Flashforward é uma técnica utilizada no cinema e na literatura que consiste em interromper a seqüência cronológica de uma narrativa ao intercalar eventos ocorridos num momento futuro como, por exemplo, quando num filme uma cena revela parcialmente algo que ainda vai acontecer.]

terça-feira, 12 de abril de 2011

Derradeiro blecaute

Era cedo quando apagaram-se as luzes.
Com a penumbra os desejos se aguçam.
Vozes impróprias suspiram e soluçam.
Corpos incandescentes consumidos sem dó.
Cinzas encarnadas de amor,
subjugadas de medo, entranhas da dor.
Exageros do eu só,
reduzido a ínfimo pó.
Decretado apagão.
Em tempos de racionamento vão,
qualquer clamor já é açoite.
Seja dia, seja noite.
Está posto o blecaute.
Sem tardar, uma luz irrompe na cidade tenebrosa.
Descobri um resquício de claridade no ar
É aceso o luar.
Vi seus olhos... seus olhos...
Repito e aponto devagar.
Decidi por fim neles morar
e nunca mais ter que anoitecer.

sábado, 9 de abril de 2011

Os tons da tragédia no RJ e nós

     Há cerca de três dias fomos assaltados pela notícia de um agressor que entrou em uma escola no bairro de Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, e executou sumariamente  doze crianças em suas salas de aula. 
     Eu gostaria de entender os acontecimentos. Não falo de respostas para perguntas banais. Para isso, já basta a imprensa especulativa movida por aquele sensacionalismo mórbido que costumamos ver em ocasiões como essa. Penso sim na possibilidade de descobrir um jeito capaz de consolar as mães das vítimas e, se fosse possível, restituir vida aos corpos franzinos brutalmente assassinados. 
     Eu gostaria que meninos não morressem antes da hora. Que mães não tivessem que inverter a ordem natural da vida sepultando seus filhos, seja as crianças mortas na barbárie de Realengo ou os jovens que compõe as estatísticas frias das páginas policiais vitimados diariamente pelos acidentes de trânsito ou pelo tráfico de drogas no Brasil.
     Queria que todos nós desejássemos coletivamente o sonho de concretizar uma escola, ao mesmo tempo, encantada e possível. Lugar em que prevalecesse o respeito às diferenças, que a liberdade ganhasse asas vigorosas e se educasse para o amor. E, acordados, víssemos uma multidão de pessoas dispostas que, consternadas com a brutalidade dos fatos recentes, tivessem a atitude corajosa de repudiar a violência estampada nos jornais multiplicando gestos anônimos de ternura e bondade em seu cotidiano.
     Não sei exatamente o motivo, mas ao acompanhar os noticiários dos últimos dias me recordei várias vezes de Pietá e senti vontade de fazer o que seus traços sugerem. A obra esculpida pelas mãos sensíveis de Michelangelo é a imagem da dor materna imensurável, que não se localiza nem se explica com racionalidade. Dores pungentes como a que Pietá retrata são aquelas que nos retiram a fala e nos dificultam as respostas.
     Certamente existe perto de nós alguma tragédia em menores proporções que cabe a nos socorrer. O jovem aparentemente sem motivos que se suicida enforcando-se no banheiro de casa certamente não decidiu se matar da noite para o dia. Ele foi colocando a corda no próprio pescoço de maneira lenta e, de algum modo, quem esteve a sua volta acabou negligenciando sua tristeza. Não tenho dúvida de que a violência em medidas menores que permitimos em nosso cotidiano, seja a agressividade no trabalho, o palavrão que soltamos quando alguém nos fecha no trânsito, as piadas de mau gosto que toleramos, o bullying nas escolas; tudo isso contribui para as grandes tragédias, das quais nos envergonharemos tempos depois. Bem sabiamente o poeta fluminense Eduardo Alves da Costa em “No caminho com Maiakóvski" nos alertou para o risco que corremos:



“[...]
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
[...]”



        Por isso, escolhi para essa noite melancólica de sábado uma reflexão silenciosa e um pouco de  esperança embalada pela belíssima canção "Somewhere Over The Rainbow” de Chet Baker.   Resta saber o que queremos aprender com as tragédias. Que a morte de nossas crianças e jovens não seja em vão, mas nos ajude a amanhecer. 
      Por fim, desejo que trompete do famoso clássico do jazz faça companhia aos seus pensamentos tanto quanto fez aos meus.    



sexta-feira, 1 de abril de 2011

Devaneios insones- O Indizível (Parte II)

     Exatos 9 dias desde que Luísa viu Theo pela última vez. Ele ficou a alguns metros de distância e certamente nem percebeu como tinha sido alvo da atenção dela a noite inteira. Ela, por sua vez, sabia dizer detalhes minuciosos da camiseta que ele vestia, do aspecto da barba por fazer, do cabelo com um charmoso ar despenteado, da falha na sobrancelha, da maneira como gesticulava com a mão contando histórias para os amigos, do símbolo do time de futebol estampado no chaveiro do carro.
     Luísa sempre foi obsessivamente minuciosa. Via os homens como quem escreve uma crônica. Reparava, conferia e depois relia tudo novamente como se estivesse revisando uma narrativa para publicação. A vida para ela dependia de incessantes contextualizações. A busca de sentido era praticamente um imperativo categórico. Precisava responder se era para hoje, se já estava pronto, se a chuva serviria de desculpa para entrar, se podia ficar até mais tarde, se a brincadeira era uma indireta ou se o colo significava cafuné.
     Ela havia mudado relativamente pouco nos últimos anos. Suas mãos ainda continuavam trêmulas da mesma forma que na época em que sua mãe a deixava na porta da escola. Já Theo era o oposto. Rapaz falante, seguro e bem-humorado. Quanto à Luísa, chamava atenção que ela passara a grifar menos os trechos que julgava marcantes nos livros que lia. Ela se defendia dizendo não se tratar de insensibilidade. Continuava tão emotiva quanto antes, só que, ultimamente, admitia estar apenas se surpreendendo menos. Tinha finalmente adquirido um jeito mais calmo de passear pelas frases, de apreciar as entrelinhas, o contorno das letras e a musicalidade das palavras.
     Já a timidez de Luísa continuava incorrigível. Era uma espécie de relógio analógico que a fazia chegar sempre atrasada e ficar escutando o ranger da porta se fechando lentamente com ela de fora. O fato é que o amor só a alcançava quando o templo já estava em ruínas. Seu coração era castelo pomposo sem rei, terreno baldio, correspondência devolvida sem antes cumprir o papel de amenizar a solidão da resignada remetente.
     Esquecer era um verbo pouco provável em sua vida. Para não viver demasiadamente amargurada em possibilidades irreais costurava bordados sobrepostos às desilusões e os escondia em baús de segredos invioláveis. Todos concordavam que duas sessões de cinema uma vez por mês e uma vida sem revelo era muito pouco para alguém ainda tão jovem.
     Theo representava para Luísa um Olímpico, o primeiro namorado da famosa protagonista clariceana em “A Hora da Estrela”. Theo tinha o poder de fazer Luísa ficar grávida de futuro. Com ele vinha o duelo entre a juventude ingênua de uma doce Macabéa atravessando a avenida da morte em busca do amor anunciado pela cartomante e a mulher contemporânea-problemática prestes a entrar em crise nos lugares mais improváveis.
     Só não queira cobrar maiores explicações da pobre menina. Luísa ainda não sabia dizer, só sabia sentir.