sábado, 18 de dezembro de 2010

Lá do mar, lado teu

Vejo sedutor o amor chamar
Parece lindo o poema á beira mar
A alma reclama aquela inspiração
Sem saber se depois da entrega vem sossego ou sofreguidão.

Imagino a tarde com a cor que seus olhos roubaram do mar
E pinto minha timidez com a intensidade de matar a sede
Que faz esse estado insensato
De boca seca, de pernas bambas
De pele fria, pulso arrítmico e falta de ar

Guardo o lirismo em fase de ebulição
À revelia da razão
Á flor da pele, a poética contradição
De todos os poetas, a perdição
No fino limbo do desejo, a espera de salvação
Feito dor e contentamento em consumição

Custam as cartas para chegar
Até o verso se revirar em reverso para declarar
Ao destinatário [que ainda demora uma eternidade para entender]
Quantos riscos eu arrisquei correr

Escuta, ó formoso sol
Afasta de mim esse medo que o mar me trás
Pois sei que um dia, se ele voltar a me levar, vou tranqüila
Pois deixo em terra firme meu coração contigo

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Final do semestre

     Por um acaso qualquer pensei mais em ti nas últimas semanas. Das provas, a do teu olhar é a que me ocupou mais. Eram tantas as doses de mistério que eu até me esqueci de decorar e acabei me atrapalhando nas armadilhas das palavras. Fiquei perdida entre os livros de um conhecimento que não foi feito para ser tácito. É que as suas intenções ainda merecem muito mais horas de estudo e dedicação e eu nunca fui muito boa nessas habilidades. 
     Repare só no meu tom de voz. Nas olheiras, nas dívidas, nas anotações pela metade, na bagunça do meu quarto também. Repare nos dias, no fim de dezembro, nas luzes se acendendo nos alpendres das casas, nos pisca-pisca das janelas dos apartamentos e na insistente esperança que ainda aconteça o novo em meio a tantas decepções desse monótono ano.   
     Mas quem sabe você ainda prove o velho all-star e eu me encante por Platão. Quem sabe eu te dê um poema de presente e receba, em troca, uma nota do tipo "aprovada com louvor" e ganhe até uma estrelinha no meu caderno. E se nos encontrássemos no recreio e dividíssemos o mesmo todinho? Se matássemos todas as aulas que não nos ensinarem a resolver os nossos desencontros, você me daria a mão?
     Talvez você até tivesse razão de me acusar de falta de tempo.
     Talvez eu tivesse sim coragem para dizer: “Vem que eu posso te fazer bem”.
     Só peço que não me venha aparecer em sonho porque senão eu perco o sono e as noites ficam longas demais. Estou cansada de tomar prejuízo todas as manhãs pela cara de insônia e a pouca disposição para começar a viver. 

[A autora prestes a se despedir do novo letivo no vermelho. Ah, essas racionalidades financeiras e afetivas! Ainda muito mais complexas que as temíveis provas de MI (risos meio melancólicos!!!)...]

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Identidade

      O dia de faxina acabou sendo uma mera desculpa para viajar nas memórias que as paredes da casa contavam.
     Nas mãos, os rascunhos antigos da tentativa hilária de escrever um romance sobre a história de um gago que sonhava ser locutor de radionovela. Nas gavetas, as inúmeras indecisões registradas em agendas guardadas dos últimos cinco anos. Seria saudável tamanho apego à vida poeirada que aqueles cadernos contavam? Em todo caso, preferi deixá-los nos seus devidos lugares.
     Vi a mulher dos livros de Clarice, a cara diminuta e existencialista do quarto de uma jovem de vinte e poucos anos, a iniciante poesia-conflito. Tudo o que me deu nome, sobrenome e endereço.
     Não há como renegar a estranha e intrínseca vocação ao ridículo, ao patético humano, a esse incorrigível e convicto discurso que sustenta a poesia nas horas em que a vida se torna inacreditavelmente inapropriada. Essa sensação assumida de que posso tropeçar a qualquer momento, de não saber cantar, não saber dançar, de estar a um milímetro de uma gafe, a um suspiro de um escorregão, a um segundo do despertador tocar na melhor parte de um sonho bom.
     Estava ali as lembranças de quando amar foi sede e fome sem remédio e sem consolo. Quando nem o terapeuta acalmou o choro das inquietudes mais insólitas. Quando o limite foi mais imperativo que a possibilidade. Quando a boca calou, o pé doeu, a maquiagem borrou e corpo perdeu a elegância. Essa, assumo, já bastante apagada desde os tempos da infância.
     Por um breve instante restou somente eu e aquela imensa solidão sartriana que o filósofo se referia quando alguém tem a si mesmo nas mãos e pode olhar-se através das próprias escolhas. Um contentar-se descontente, inseguro, certas vezes ligeiramente crédulo.
     O eu e suas virtuosas contradições solitárias. A inatingível e filosofal busca por uma essência coerente, ainda que aristotelicamente dividida entre acertos e erros.
     Enfim, apronto delicadamente a cama para dormir como quem faz um ritual simbólico de renascimento, de identidade reconciliada. Deito exausta com uma sensação inédita de paz...

[Vencendo a insônia. Das tripas, coração!]

sábado, 16 de outubro de 2010

Por favor, não me chame o doutor

     Escondo-me no porão. Nos recantos escuros, a alma não tem receio de maldizer o que a incomoda. Fala palavrão, faz cara feia e até pirraça no meio da sala pra chamar atenção de quem estiver passando desavisado por perto.
     O dia dura mais do que convém e o suficiente para desatar os clamores do corpo.
     A começar dos ares provincianos, do desalinho matinal, da incorrigível cara de sono, do jeito banal. Nada de méritos, sem muita irreverência e com as velhas angústias irrespondíveis de sempre.
     Nem sei se pelo menos a poesia se salva de mim. Em mim ela é tão inconcreta, tão juvenil, tão fugaz. Tento, de forma artesanal e resignada, arrancar à força o fruto doce da alegria quando as palavras se escondem e, feito boba, imploro humildemente que elas não me faltem nas horas do desassossego. No entanto, nem elas nem você vêm quando tenho mais fome.
     Fico esperando na porta da sala enquanto rascunho, faminta, na palma da mão, uma única rima. É como se pudesse costurar com linha dupla as feridas abertas na minha carne. Só que esses pontos ninguém me ensinou a dar. Não aprendi a aproximar as bordas desse conceito abstrato.
     Até hoje nem sequer aprendi a cuidar de mim. Não há agulha e fios que dêem conta de uma conduta menos culpabilizante, ainda que eu merecesse. Nem sempre é fácil olhar-se com honestidade e admitir que se vive negligenciando emergências e interrompendo o choro para cobrar uma praticidade que, definitivamente, não se possui. 
      Os problemas crescem diretamente proporcionais ao grau de complicações que a vida impõe. Às vezes trato empiricamente, mas na rotina diária ainda insisto em preferir esse incorrigível movimento pendular de remissão incompleta e exacerbação. Têm horas que me falta ar, mas não me pergunte há quanto tempo começou. Eu não saberia verbalizar. Outras vezes dói tudo. Dores dessas que não se localizam, não têm nome, não se medem em escalas numéricas. Às vezes choro feito criancinha, outras vezes faço o gênero mãe-neurótica. Sou a carente, a irritada, a lacônica, a poliqueixosa. Tenho em mim todos os males e ponto.
     Tudo isso e mais algumas características, por hora impublicáveis, que ainda vão demandar outras reflexões, outro dia, outro post, outro começo de noite...

[Há quase quatro anos tentando entender esse negócio de "estudar medicina"]

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Móbile

                                                            Na raiz de todo movimento está a contradição. Sou um móbile vivendo a grandeza metafísica de uma mutação por minuto. Cada partida encerra um fim em si mesmo até quando da fartura sobra só o interminável segundo de um instante.   
    De inúmeras inadequações vive o poeta. Da tarde que não despede a saudade, da coragem que falta quando seus olhos me vêem, da palavra que não obedece ao sentimento que a originou, da dor que nem de longe corresponde ao peso da vida que me leva. 
    O resumo é apenas um recorte imperfeito da obra que desisti de escrever e, tantas vezes, reinventei após renascer. Envelheci nas páginas que aceitavam as confidências que os medos de criança não deixaram contar e contei segredos à boca miúda enquanto os ouvidos se distraíam vendo os versos rimando uns com os outros á espera do poema ficar pronto. Diversas vezes até escorreguei nas duras regras gramaticais do amor a ponto de me esquecer de conjugar o nome que faltava para complementar os meus modestos predicados.
     Agora, só resta publicar um manifesto para exigir o legítimo direito do ressarcimento do tempo que eu perdi ouvindo trezentas vezes a mesma música, voltando para casa sempre pelo mesmo caminho, contando os dias incalculáveis do calendário e ensaiando frases menos clichê.
     Mesmo que eu continue tão comum como antes. Mesmo que a poesia não amenize. Mesmo que setembro não traga tantas primaveras assim. Mesmo que o ponto final ainda seja tão reticente como agora...