terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Canção de bolero

     A onda quebrou no mar como um refrão de um bolero. A canção ficou incompleta como se esperasse a palavra mais importante de uma frase inconclusa. Mais parece uma declaração suspensa à mercê de um complemento arrebatador. A rima aguarda o retoque final, um pouco de percussão, cordas e o crivo da solidão. A imaginação, por sua vez, dança, sozinha, perdida no meio do salão.
     A voz grave e afinada é uma irrecusável proposta de epifania. Quase um convite a uma protagonista clariceana. Um pedido de resposta, um conto, uma incógnita interrogação. Como uma dança derradeira ou um poema de despedida, se preferir.
     A letra é triste, tanto quanto os personagens que a fazem comovente. Mente quem ainda não assumiu o trocadilho musical e ainda insiste em se vestir de alegria o tempo todo. Mesmo diante da melancolia que os olhos teimam esconder atrás da canção. Até o grande sambista já admitiu ser um pouco sozinho e usar o chapéu-panamá só nas horas que dá. Eu quero mais é que nunca me falte vestido rodado, bordados, flor no cabelo, sapatilha no pé e um bom lamento.
     As histórias têm cheiro de passado, emolduradas em cenas repletas de exageros e desejos. São românticos boleros que viraram relíquias em preciosos acervos que muitos já nem reviram mais.
     Adentro ao aroma de memória, ao sabor cítrico misturado a recordações e confissões que o tempo esqueceu de envelhecer. Continuam atemporais, atuais e fascinantes. Discos empoeirados na estante, ansiosos para serem revisitados por uma alma apaixonada e curiosa em busca de novos sons.
     Deixo recados gravados lhe convidando para um bolero. A música, eu já escolhi. O traje, também. Por favor, queira entrar. Abra a porta e curta a boa música.

[Sugiro a releitura desse texto acompanhada da música “Resposta ao tempo”. Uma composição de Aldir Blanc e Cristovão Bastos na voz inconfundível de Nana Caymmi, herdeira do talento do pai e uma das maiores intérpretes latinoamericanas de bolero. Uma tradição hispânica cantada em bom português.]

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Gerundismo

Segurando na mão de nossa Senhora protetora das calorias pra ver se a balança começa mais minha amiga em 2011.
Tendo um papo sério e definitivo com todos os remedinhos do clube da insônia.
Rindo dos erros tolinhos desse ano de meia tigela.
Cantando samba para ver se eu desafino menos nos acordes decisivos.
Fazendo poesia pra ver se compensa a falta de jeito para o amor.
Prometendo cuidar melhor das minhas plantinhas, tadinhas!
Jurando não negligenciar mais meu café-da-manhã.
Querendo três doses a mais de paciência e uma garrafa inteira de coragem.
Provando da fome de querer mais e melhor de mim.
Pedindo tempo bom, sol, praia e água de coco pra minha alma.
Assumindo a vocação de bobo da corte.
Reconhecendo que sou muito cínica para ser sensual.
Questionando algumas verdades estabelecidas, algumas mentiras também.
Calculando menos para diminuir os prejuízos.
Focando na distração e pulando amarelinha com os obstáculos.
Imaginando enquanto os olhos não vêem.
Começando a lição básico 1 de uma escolha profissional cheia de sinuosidades.
Brigando diariamente com a parte sádica do peito.
Abraçando a loucura insana de achar que o mundo ainda será menos sério.
Caindo a ficha que o ego e o superego definitivamente não se entendem.
Aconselhando em alto e bom tom a parte surda do coração.

[Uma lista de boas intenções para 2011... Faça a sua também, caro(a) leitor(a)!]

sábado, 18 de dezembro de 2010

Lá do mar, lado teu

Vejo sedutor o amor chamar
Parece lindo o poema á beira mar
A alma reclama aquela inspiração
Sem saber se depois da entrega vem sossego ou sofreguidão.

Imagino a tarde com a cor que seus olhos roubaram do mar
E pinto minha timidez com a intensidade de matar a sede
Que faz esse estado insensato
De boca seca, de pernas bambas
De pele fria, pulso arrítmico e falta de ar

Guardo o lirismo em fase de ebulição
À revelia da razão
Á flor da pele, a poética contradição
De todos os poetas, a perdição
No fino limbo do desejo, a espera de salvação
Feito dor e contentamento em consumição

Custam as cartas para chegar
Até o verso se revirar em reverso para declarar
Ao destinatário [que ainda demora uma eternidade para entender]
Quantos riscos eu arrisquei correr

Escuta, ó formoso sol
Afasta de mim esse medo que o mar me trás
Pois sei que um dia, se ele voltar a me levar, vou tranqüila
Pois deixo em terra firme meu coração contigo

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Final do semestre

     Por um acaso qualquer pensei mais em ti nas últimas semanas. Das provas, a do teu olhar é a que me ocupou mais. Eram tantas as doses de mistério que eu até me esqueci de decorar e acabei me atrapalhando nas armadilhas das palavras. Fiquei perdida entre os livros de um conhecimento que não foi feito para ser tácito. É que as suas intenções ainda merecem muito mais horas de estudo e dedicação e eu nunca fui muito boa nessas habilidades. 
     Repare só no meu tom de voz. Nas olheiras, nas dívidas, nas anotações pela metade, na bagunça do meu quarto também. Repare nos dias, no fim de dezembro, nas luzes se acendendo nos alpendres das casas, nos pisca-pisca das janelas dos apartamentos e na insistente esperança que ainda aconteça o novo em meio a tantas decepções desse monótono ano.   
     Mas quem sabe você ainda prove o velho all-star e eu me encante por Platão. Quem sabe eu te dê um poema de presente e receba, em troca, uma nota do tipo "aprovada com louvor" e ganhe até uma estrelinha no meu caderno. E se nos encontrássemos no recreio e dividíssemos o mesmo todinho? Se matássemos todas as aulas que não nos ensinarem a resolver os nossos desencontros, você me daria a mão?
     Talvez você até tivesse razão de me acusar de falta de tempo.
     Talvez eu tivesse sim coragem para dizer: “Vem que eu posso te fazer bem”.
     Só peço que não me venha aparecer em sonho porque senão eu perco o sono e as noites ficam longas demais. Estou cansada de tomar prejuízo todas as manhãs pela cara de insônia e a pouca disposição para começar a viver. 

[A autora prestes a se despedir do novo letivo no vermelho. Ah, essas racionalidades financeiras e afetivas! Ainda muito mais complexas que as temíveis provas de MI (risos meio melancólicos!!!)...]

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Identidade

      O dia de faxina acabou sendo uma mera desculpa para viajar nas memórias que as paredes da casa contavam.
     Nas mãos, os rascunhos antigos da tentativa hilária de escrever um romance sobre a história de um gago que sonhava ser locutor de radionovela. Nas gavetas, as inúmeras indecisões registradas em agendas guardadas dos últimos cinco anos. Seria saudável tamanho apego à vida poeirada que aqueles cadernos contavam? Em todo caso, preferi deixá-los nos seus devidos lugares.
     Vi a mulher dos livros de Clarice, a cara diminuta e existencialista do quarto de uma jovem de vinte e poucos anos, a iniciante poesia-conflito. Tudo o que me deu nome, sobrenome e endereço.
     Não há como renegar a estranha e intrínseca vocação ao ridículo, ao patético humano, a esse incorrigível e convicto discurso que sustenta a poesia nas horas em que a vida se torna inacreditavelmente inapropriada. Essa sensação assumida de que posso tropeçar a qualquer momento, de não saber cantar, não saber dançar, de estar a um milímetro de uma gafe, a um suspiro de um escorregão, a um segundo do despertador tocar na melhor parte de um sonho bom.
     Estava ali as lembranças de quando amar foi sede e fome sem remédio e sem consolo. Quando nem o terapeuta acalmou o choro das inquietudes mais insólitas. Quando o limite foi mais imperativo que a possibilidade. Quando a boca calou, o pé doeu, a maquiagem borrou e corpo perdeu a elegância. Essa, assumo, já bastante apagada desde os tempos da infância.
     Por um breve instante restou somente eu e aquela imensa solidão sartriana que o filósofo se referia quando alguém tem a si mesmo nas mãos e pode olhar-se através das próprias escolhas. Um contentar-se descontente, inseguro, certas vezes ligeiramente crédulo.
     O eu e suas virtuosas contradições solitárias. A inatingível e filosofal busca por uma essência coerente, ainda que aristotelicamente dividida entre acertos e erros.
     Enfim, apronto delicadamente a cama para dormir como quem faz um ritual simbólico de renascimento, de identidade reconciliada. Deito exausta com uma sensação inédita de paz...

[Vencendo a insônia. Das tripas, coração!]