domingo, 22 de abril de 2012

Dor fantasma

Disse a ciência está dito.
Eu é que não me arrisco a ser "do-contra”.
“Quando alguém sofre uma amputação, 
a parte amputada ainda existe no seu mapa mental”
Disse o enfático médico cheio de razão.
“Mesmo quando os olhos não veem, o cérebro sente”
Declamou o poeta cheio de emoção.
Eu, que nunca amputei um braço ou uma perna,
mas já perdi incontáveis partes de mim,
vivo sentindo uma coceirinha pelas pessoas que já se foram
porque passaram a morar longe,
ou porque morreram de desastre,
ou simplesmente se cansaram de mim.

domingo, 8 de abril de 2012

Nonsense

Alívio seria se você se mudasse de mim
ou se viesse de novo repetir o que foi bom.
Entre tetos, aconchegos e abrigos
até o dia nos amanhecer amigos.

[A autora, numa manhã nonsense de páscoa, brincando com a definição do poeta Mário Quintana: “Amor é quando a gente mora um no outro.” ]

segunda-feira, 12 de março de 2012

E-mail

     Sabe que eu nem me reconheço mais. Depois de algum tempo e poucas horas de Blues aprendi a amadurecer para fora. Dei autonomia para a discordância e abandonei os títulos, as nomenclaturas. Nessa altura da vida nenhuma vertente literária é capaz de salvar o poema do abismo nem consolá-lo da desilusão amorosa. Preferi estabelecer um novo eu e decidi aperfeiçoar minha crítica de mundo. Prestei atenção na experiência de que é conversar. 
     Deixei a vida passar, critiquei e superei dando um passo além. Talvez outro dia volte dois passos atrás e pense melhor, mas penso... Prefiro assim: não alugar molduras, não fugir das angústias, não esconder a bagunça da casa nem tampouco as indecisões do futuro. 
     Reconheci minhas inseguranças e nem por isso me diminuí. Vi a caixa de e-mail vazia, escutei a chuva suave pela janela, preparei a mesa do jantar para ninguém e nem me incomodei como antes. Fui mais gente que poeta. 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Prece por um amigo

 Meu Deus, 

Senhor dos destinos insondáveis dos homens,

confesso humildemente minha incapacidade de compreender a terminalidade da vida.
É tão difícil ter a valentia necessária para entender os ventos impetuosos da morte e enxergá-la metaforicamente como o sábio autor a descreveu: a curva que nos espera ao final da estrada...
Só peço que não permitais que aceitemos com naturalidade a partida prematura de nossos jovens. Que nunca nos falte a inquietação, o incômodo desassossego, a reflexão dos porquês. 
Ajudai-me a amadurecer a cada dia com as lições que a vida me proporcionar.
Que eu me transforme a partir dos acontecimentos e que estes não sejam em vão.
Que a medicina me ensine a calar quando me faltarem palavras e a amar com mais ternura porque nada pode ser tão urgente quanto o amor.
Que a belíssima inspiração do poeta gaúcho se cumpra entre nós...
  
“A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim..."

Mário Quintana, Poesia Completa.


Que os anjos do céu digam “amém” à doce rima de seus versos e os homens de boa vontade vivam motivados pelo objetivo de concretizá-la.

[Em homenagem ao querido Fabrício que faleceu ontem na Enfermaria de Moléstias Infecciosas do HC-UFU, às 10h02min numa manhã ensolarada como poucas. Infelizmente, os bons ainda continuam a morrer muito jovens]

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Inconcordantes

No princípio era só o verbo
latente em estado de silêncio.
Depois veio o sujeito
e com ele todos os erros de concordância.

Você chegou tirando histórias fantásticas
de dentro da sua mochila cheia de estilo,
como um narrador habilidoso de lendas encantadas.
Seu all star azul parecia o par perfeito para o meu preto de cano alto.
No fim, adoçou-me a boca enquanto nos divertíamos
tentando conjugar nossas agendas.
Depois, você saiu, num dia nublado, sem maiores explicações.
E me fez descobrir a tristeza,
essa vontade estranha de algo que ainda não inventaram.