sábado, 29 de março de 2014

Matéria-prima

Somos o contraponto da cidade convencional.
Somos o desejo que não se consome no fogo da lareira.
Somos o que os outros chamam de sorte.
Somos a contravenção de um bom ladrão.
Somos o que nos dá coragem mesmo tremendo de medo.
Somos a noite debruçando suas luzes sobre a calçada.
Somos os botões de fuga que acionamos diariamente.
Somos a criança de colo admirando a barba branca do pai.
Somos a sapatilha de pano nos pés da plebeia de alma nobre.
Somos os porres criativos dos amantes não correspondidos.
Somos o gordinho de óculos deslocado na festa do colégio.
Somos o diabético que namora a geladeira.
Somos o nerd perdendo a grande chance da vida por uma crise de asma.
Somos a poesia do branco-encardido e do amarelo-verdade.
Somos o que sussurramos inconscientes enquanto dormimos.
Somos as confissões que cravamos no tronco da árvore da vida.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Quem sabe

Ele não sabe, mas açaí é o alimento mais poético que existe.
Ele não sabe, mas os versos são desejos repentinos das madrugadas.
Ele não sabe, mas ironia e Nescau demais fazem mal igualmente.
Ele não sabe, mas a cidade continua fria mesmo aos 40 graus.
Ele não sabe, mas os nossos filhos vão ouvir Dylan.
Ele não sabe, mas a minha terapeuta me aconselhou um cachorro.
Ele não sabe, mas a bebida só é boa quando a companhia ajuda.
Ele não sabe, mas o céu tem as estrelas que se consegue colocar.
Ele não sabe, mas ontem foi sábado como se não tivesse sido.
Ele não sabe, mas a pior anemia é a inanição do afeto.
Ele sabe muito bem que o amor não tem encaixe perfeito, mas a poesia sim.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Pacto em 4 atos

1.
No último ato de um final de semana feliz,
numa dessas tardes quentes de verão,
conhecidas por instabilizarem o mais áspero dos corações,
fomos a uma roda de samba, a Vida e Eu.

2.
Ela (como sempre) misteriosa em suas insinuações sutis
repousa meus instintos mais inconsequentes numa sonora paz,
enquanto pacifica minhas dúvidas com afetos e conselhos
entre um gole e outro numa garrafinha de água com gás.

3.
Abre um guardanapo de memórias e promessas distantes
e me aponta uma dádiva em cada ponto de esperança dissipada.
Com o tempo as duras pedras alicerçam as inconstantes quedas
quando a gente brinca com a cara espatifada no pó da estrada.

4.
Dançamos de mãos dadas alguns passos erráticos e torpes.
Embriagadas de uma bebida forte e doce, na mesa de um bar qualquer.
E, de forma decisiva, fizemos de um brinde um pacto de vida.
A Vida e Eu...
Vamos seguir sem medo!

domingo, 12 de janeiro de 2014

Teoria literária para iniciantes

O poeta é o melhor socorrista! 

Estranhamente levado pelos sentimentos

num mundo em que nem mais aos travesseiros

se confessam antigos e furtivos segredos.

Vendedor de pipoca caramelizada,

ganha no grito a palavra-amiga,

que se dissolve na boca amada,

no breve instante de um suspiro.

Repentista de amor improvisado,

com o sotaque mais lindo,

que já se ouviu cantar pelas entrelinhas de cá.

Ele cede o último analgésico da bolsa

no dia que a enxaqueca marcou de voltar

e troca solavancos asfixiantes por rimas caprichadas.

Seu lirismo é tão revolucionário a ponto de

tomar um toddynho ao chegar na balada

ou oferecer a própria “bombinha”

em solidariedade ao asmático do lado.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Gerundismo- Ano 2013


Cobrando da Cardiologia uma explicação plausível para os sobressaltos agudos do miocárdio.

Pedindo a Deus um antiácido que cure refluxo e o desassossego próprio dos fins de tarde.

Deixando um espaço privilegiado na bagagem que carrego para as histórias que as cicatrizes dos meus joelhos contam.

Admirando a nudez que é assumir os próprios erros.

Caminhando devagar para que as manhãs durem mais.

Selando um acordo de paz com o travesseiro e reclamando menos da insônia.

Escolhendo fazer o certo, mesmo que dê mais trabalho.

Fazendo sala para o amor e servindo café da manhã para as esperanças.

Firmando metas de não cumprir tantas metas assim.

Entrando no jogo para ganhar, mesmo quando perder for inevitável. 

Colorindo as paredes do meu quarto com os desabafos calados do último ano.

Tendo mais compromissos com o coração do que com a agenda.

 Marcando um encontro romântico com o imprevisível.

Assumindo os riscos que realmente compensam.

Enfeitando os dias e esquecendo os porquês além da alegria.

Conformando com o fato de sempre perder as havaianas pela casa.

Frequentando a rua dos desiludidos, as quebradas da tristeza e o submundo da poesia.

Aconchegando-me nos braços dos abraços que me fazem bem.

 

Caro(a) leitor(a), que 2014 seja bem-vindo e traga recompensa para os corações perdidos. O único crime consentido seja o de matar alguém de saudade e a maior falta de respeito seja dizer “eu te amo” de boca cheia...