domingo, 21 de abril de 2019

Trombofilia

Qual a consistência material do que você sente?
Prefere a fluidez de um sangue ralo ou a espessura de um trombo recente?
Você se contenta com simplesmente viver ou precisa pensar nas propriedades farmacológicas do que vive sentindo?
Você se orgulha mais de ter um corpo esguio ou um coração liquefeito que mal para em pé diante de tanto solavanco?
Quanto o seu histórico de tromboses venosas diz da sua trajetória de obstáculos pessoais?
Qual a composição do seu plasma?
Adianta anticoagular se não for recanalizar?
Qual a sua capacidade de construir colaterais?
O que mais te faz mal: turbulência ou estase?
Qual a reologia da sua superfície?
Já conseguiu aparar aquelas arestas? 
Consegue superar a fragilidade de uma hemácia?
“To bleed” e “to bless” só rimam ou conjugam dores semelhantes nos seus tempos verbais?

Não se preocupe. 
Não precisa responder tudo agora. 
Melhor acudir o leite que derramou sobre o fogão. 
Esse é o preço que se paga por ousar se distrair tempo demais com a poesia.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Sobre amar em tempos de ódio

Leio um poema de Drummond e antes da metade eu já me recordo de você. 
(Aspirante à poeta, professor, admirador de Paulo Freire). 
Abro uma lata de leite condensado e antes da culpa bater me lembro de você.
(Vegano, protetor dos animais, ambientalista).
Tem tanto de você no formato cômico que as nuvens vão tomando no céu e naqueles documentários sobre a origem do universo, placas tectônicas, terremotos e maremotos, história dos dinossauros e dos povos mesopotâmicos.
(Cinéfilo, contra-cultura, tropicalista, hippie).
Tenho a impressão até que você mora em algum daqueles solos de guitarra do rock britânico dos anos 80, numa rádio retro que pouca gente conhece ou no meu quarto quando a luz se apaga, mas o sono não vem.
(Artista, respeitador de lugar de fala, insone).
Toda vez que o tempo muda de repente, nos banhos de chuva imprevistos que a gente leva sem querer, nessas surpresas miúdas que só acontecem no entardecer, no final do plantão tomando o caminho de volta pra casa.

(Distraído, workaholic, endividado).
Sempre quando vejo fumaça saindo do chá de hortelã, na confusão de sentimentos que o agridoce me provoca, quando me atraso porque o despertador não tocou, quando o expediente acaba ou quando falo uma redundância sem perceber.
(Tímido de cabelo bagunçado, classe trabalhadora).

Lembrar é uma forma de resistir ao esquecimento.  
Mentiram pra gente quando nos fizeram acreditar que a gente ama com o coração. 
A gente ama mesmo é com a memória. 
Aquela que temos ou aquela que inventamos para sobreviver aos dias sem nenhum sentido.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Bem-me-quer

Escrevi seu primeiro nome no verso da última pétala da flor do meu querer.
Depois, espremi as letrinhas pra caber um “bem-me-quer” num canto à esquerda. 
Por último, prometi não quebrar a tradição antiga quando o desejo não for uma metáfora qualquer.
Muitos disseram que eu provavelmente esteja dormindo em pé.
Outros, mais amigos, me acharam cansada e gentilmente me aconselharam umas férias.
Tive de explicar educadamente o quão estavam estatisticamente enganados.
É que nunca souberam encontrar entre os inutensílios perdidos:
o castelo de areia erguido na sala de TV,
o beijo que cura a dor nas costas e a enxaqueca do mês,
o poema que dorme no rodapé dos livros de medicina,
o domingo de folga que atravessa as quintas de plantão,
o abraço que vale por uma semana há mais de férias,
a viagem que junta o continente dos sentimentos,
a prescrição que recomenda colo e alivia medos,
o olhar que é comum, mas enxerga em 3D,
o amor que não tem CRM, mas socorre a vida dos perigos dela mesma.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Restos mortais

Quanta gente morre todo dia soterrada por uma avalanche de pragmatismo, asfixiada num vazio sem encaixe, num silêncio infértil, numa dor sem transcendência.
Em tantas delas a chuva caí e escorre impermeável, o vento bate sem envergar ou refrescar.
Vivem como se o mundo fosse trincado por dentro de cima para baixo.
Não dão um passo sequer com o cadarço solto, nem um mísero soluço quando sentem medo.
Morrem com a coluna arqueada, as coronárias entupidas ou por morte natural, sem compreender, no entanto, que a vida é um dom que se concede aos que subtraem da felicidade o detalhe que a maioria não repara enquanto vive.

domingo, 17 de julho de 2016

Centro da cidade

Tenho em mim a saudade mais forte do perímetro urbano.
Temo não caber nesse frágil coração um sorriso largo,
que combine com a amplitude do teu peito destemido nas ladeiras do mundo.
Continuo temendo os passos em falso, o revolto mar, a sutura sem anestesia,
a instabilidade do solo, a economia das algibeiras, a insônia sem companhia,
os estilhaços dos vitrais, as frases sem concordância, as almas sem discordância.
Mas um dia ainda hei de agradecer por cada rima tímida escondida nas gavetas,
pela saliva cicatrizante de teus lábios, o unguento com cheiro hortelã de tua pele,
o silêncio do teu caos, o clarão do teu breu, as luzes enluaradas do teu céu.
Por acenderes a lareira dos sonhos e desviares a rota geométrica das certezas
até eu encontrar novo rumo, no centro de mim, desaprumo.