sábado, 24 de julho de 2010

À luz do dia

     O que sei pertence agora à dor do meu canto. Desafinou a rima de um desencanto.
     De amarga cor, a vida é só o que se consegue extrair dela. A escolher: do odor suave ao sabor vinagre.
     Pobrezinha, a jovem, conhecida pelos medos sutis, contentou-se somente com o que cabia na mão, ora guardado nas gavetas da cômoda frustração. O samba, o som e a dor da canção...
     A menina ficou pelo terraço escuro da bagunça com ar de cansaço. Amiudou-se no curto espaço do que poderia ser e não foi. De tão simples, esqueceu-se do quanto era triste ainda. Que nem chamar para dançar sabia...
     Com poucos atrativos, o que era de esconder velava na poesia. Silenciava, em palavras anacrônicas, os olhares e os pesares. Analógica, jamais se convenceu que quem importava jamais viu nem sequer se comoveu. Nem na versão modesta, nem na seresta, nem na acústica, nem nesta.
     Entardeceu antes mesmo que o sol despontasse atrás de uma montanha de desejos. Ficou brega de tanto que sobrou querer. As flores e os laços só enfeitaram o sorrisinho disfarçado da hora tarde.
     Drama de uma nota só; comédia a sós; trama de vários nós, mas nunca um NÓS.
     Canto baixinho, franzino, quase mesquinho de tanta timidez.
     Tanto artifício só para um personagem?
     Seria um desperdício?
     Não, talvez sobrasse algo melhor para dizer no final.
     Mas não quis terminar o poema, era tarde demais para pensar um refrão menos cliquê...

[A autora querendo poesia à luz do dia...]

domingo, 27 de junho de 2010

Nem num post só

     Escrevi um estratagema audacioso para encontrá-lo entre canto e rima. Nos seus planos, o meu amor é a nota mais dissonante que a sua banda já tocou. Pode confessar. Só acreditei no que disse ser possível e assumi o imponderável romantismo entre encantos e escombros.
    O meu poema compensou a frase clichê dos poréns e perdoou os apertos do peito. Também prometi desvendar, até o final do inverno, seu acorde perfeito. O segredo do seu prato preferido agora já é trivial na minha mesa. Subordinei suas conjunções às minhas concessões temperamentais.
     No mais, a sombra do sol estende a tarde como um lençol enquanto o tempo se eterniza na janela do meu quarto. Já a varanda lá de casa, por sua vez, pretensiosamente só encomenda lua cheia quando alguém, de propósito, chega sem avisar...
     É certo que a canção que eu fiz não faz calar as palavras. O irreversível imaterial desafia as regras da poesia e você, certamente, não foi feito para caber no papel nem se resumir num post só. Mais fácil os advérbios variarem que os adjetivos contemplarem toda a inspiração dessa hora.
     Perdi o repertório. Esqueci a letra em público e como conjugar os verbos mais sérios quando você me olhou e, à beira do abismo, me fez rir das perdas da semana passada. 
        "Não é nada, não é nada!”, batuquei desajeitada num tom de samba e piada.
       Por fim, brincamos de desafinar o coro chato dos descontentes à nossa volta e finalizamos improvisando uma prévia das 7 maravilhas do lugar imaginariamente inventado por nós:


“Sorvete de menta com chocolate;
-Férias com pijama surrado;
-Relógio despertando domingo só pelo prazer de desligá-lo e dormir sem culpa;
-Bossa e vinho tinto;
-Jazz e sábado à noite;
-Música de Chico à dois;
-O céu como teto.”

     Acabei ficando crédula de uns dias para cá.

sábado, 19 de junho de 2010

Imortal

     Faleceu nas Ilhas Canárias, ao lado da família,  numa tarde do verão europeu em meados de junho de 2010, o escritor português José Saramago.
     Desde essa notícia, restou-me uma inconsolável sensação de orfandade. Os escritores deveriam ser terminantemente proibidos de morrer.
     Como lidar com a angústia de nunca mais poder pousar as mãos sobre a criatividade de alguma nova produção literária do escritor? O que fazer sem sua prosa e seu poder de recriar a vida pelo dom alquímico das palavras?  Como acostumar-me sem os abalos sísmicos de suas críticas ácidas dirigidas aos desatinos capitalistas ou à parcela emburrecida das esquerdas?
     Recordo-me, nesse instante inominável de luto e nostalgia, dos caminhos que percorremos juntos no meu primeiro contato com sua obra aos 18 anos lendo "Memorial do Convento". Era como se ele me pegasse pela mão levando-me a conhecer os bastidores do século XVIII. E, assim, tive a melhor aula de história da minha vida. Agora, resta-me apenas um memorial de saudades...
     Lembro-me do dia em que entrei numa livraria ansiosa por adquirir um de seus lançamentos, o livro “As Intermitências da Morte”. Em processo de descoberta dos encantos da arte, a voracidade da jovem leitora foi detida pelas barreiras financeiras que, ainda hoje, insistem em limitar a democratização da literatura. Trinta e cinco reais custava o exemplar, e isso era tudo que eu não podia pagar. Voltei para casa sentindo-me vilipendiada, como se negassem a mim o legítimo direito do acesso à cultura. Tive de relevar a “pressa” até poder encontrar o livro, tempos mais tarde, em alguma biblioteca pública. 

     E salvem as bibliotecas da extinção e as abarrotem de  Saramago, por favor! 

     Hoje, cinco anos mais tarde, percebo que minha estante não esconde a predileção pelas narrativas longas e densas do escritor português. Antes de adormecer, pensei:

     - Por que não retirar as “Intermitências da Morte” da estante? A forma mais interessante de celebrar a vida e a obra de um escritor é reler alguns trechos de sua prosa.

     “Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.”
As Intermitências da Morte, 2005.


     Decidi, então, entrar de novo no universo de reflexão existencial de Saramago e me permiti eternizar o autor pelo poder de sua obra. Faça o mesmo. Façamos, sempre!

[Conheça também o espírito blogueiro da Fundação José Saramago em http://caderno.josesaramago.org/]

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Monólogo particular

     Corta a arma a espera de cumprir seu fim. O fio da navalha ensaia mais um discurso diário de lamentos. Cinco minutos dedicados a um monólogo particular de queixas solitárias. Menos do que precisaria, certamente.
     Choros de dores não ossificadas, sem rosto definido, alojadas num lugar que não aprendeu a nomear. Sofrimentos sem motivos claros à espreita de alguns ares ensolarados pra variar. Quem sabe na próxima estação, insiste a se perguntar?!
     Histórias ancoradas, já um pouco cansadas de imaginar felicidades dedilhadas que nem sequer imaginou compor. A corda, o laço e o nó não desataram as duras amarras que ajudaram a impor.
     Menina, ainda, refugiou-se num cantinho escuro para soluçar as mágoas do não-acordo. Adormeceu ali entre papéis, promessas, tintas, poucos sonhos e saudades que, naquela data, decidiu esquecer. Não se enganaria, entretanto. Voltaria a acordar esperando o destino de noites marcadas para amanhecer. É um jeito de se manter sã, pelo menos até o momento de voltar a sorver-se nos velhos motivos aflitivos de antes.
     Por hora, contentar-se-á com alguma distração passageira. Quem sabe brincar de pintar a casa com cores de um entardecer melancólico de inverno. Distrair-se com a tristeza convidando-a para entrar.
     Mesa posta, talheres, copos e mais algumas minúcias que acabou esquecendo. De resto, só o detalhe das violetas tímidas na janela disfarçando a falta de móveis no ambiente. Acabou se acostumando com um coração de pequeno espaço. Os avisos na porta da geladeira não escondem a natureza dos últimos dias. Longos, frios...
     Menos encorpados que um vinho tinto.
     Menos densos que um discurso de botequim.
     Só um pouco mais pretensiosos em reclamar outros sabores, ultimamente.
     Mais adocicados. De preferência agridoce no final para não enjoar.

sábado, 29 de maio de 2010

Depois de um mês

     Escolhi outra bebida, brindei à tarde com um poema. Frio, cinza, maio maior que todos os outros versos. Se soubesse dançar, dançaria um soneto com estribilho decassílabo. Assimétrica, embalei um refrão com jeito de dilema vespertino. A escolher estavam um drama de domingo magro ou um baile de terça-feira gorda. Preferi, no entanto, a cadeira de balanço, o ritmo das lembranças e as baladas recordadas do último outono.
     Tenho todos os motivos menos dois para ser triste, mas não é hora de cálculo matemático. É provável que a tarde não queira espantar a boa ocasião da inspiração. 
     Longo mês. Exatos trinta dias sem nenhuma produção que pudesse amenizar a loucura ou me jogar de vez dentro dela. Na lixeira, só alguns rascunhos com segredos que agora nem mais novidades são.
     De susto, canto minha aldeia. De medo, minhas miudezas me ocupam por demais. Rascunhos tantos que nunca sobra tempo para passar a limpo. Ficam todos ali: inacabados, empilhados, amuados, corados de vergonha e da sinceridade que foi possível naquela hora...
     Reticente só eu em não lê-los há tanto tempo. Disfarço, fingo não sê-los. Faço feito carta sem selo. O mistério é uma forma contente de proteção do remetente ao possibilitar ao sujeito esconder o predicado da ação. A metáfora, a lágrima que escorre sem que ninguém peça uma satisfação.
     A medida certa, nunca a encontrei. Talvez nem quisesse achá-la. Gosto mais dos poemas aguados, dos dançarinos desengonçados, dos filmes do passado e do relógio de ritmo atrasado.

     Às vezes acho graça, às vezes choro.
     Às vezes danço, às vezes corro.
     Às vezes faço poema, às vezes só silêncio.


[O desenho desse texto é uma generosa contribuição da minha amiga talentosíssima, Lexina Florindo Carvalho, feito especialmente para o blog.]