Quisera eu dar nó em retas paralelas...
Os nossos contra-planos se encontrarão no infinito?
Não sei...
Só sei que o amor encurva o mais arrogante dos
otários.
Coube a nós desfocar a lente da câmera
para que o nosso postal não desbote,
pelo menos, até o próximo inverno.
Mesmo que a Guanabara seque
e o estado da Bahia gele,
mesmo que Chico desista do amor,
e Ella Fitzgerald desafine nossa canção preferida,
dançaremos uma valsa no asfalto,
de peitos desnudos e pés descalços,
para que enquanto a gente gire
o mundo pare de rodar.
Preste atenção, meu querido.
O amor é um disparo certeiro e involuntário.
Ou você abre o coração de bom grado,
ou ele arromba a janela, sem aviso prévio.
Na calada da noite, enquanto você dorme.
Num mundo marcado pela diversidade interpõe-se a divergência entre pontos de vista. Serão sempre pontos de vista a partir de um PONTO - seja o da porta da frente, seja o da porta dos fundos. É nesse espaço de escolhas que a arte se irrompe e transfigura-se em seu poder de recriar a vida, transformar as mentes, afetar as sensibilidades, encurtar as distâncias e encontrar os olhares. Se desejar entrar, a porta está aberta. Achegue-se mais e seja bem-vindo(a)!
domingo, 21 de abril de 2013
domingo, 31 de março de 2013
Devaneios insones- Domingo de Páscoa
Ainda nos seus vinte e poucos anos
(apesar de alguns consideráveis fios brancos), Luísa chegou à conclusão de que
o tempo é o seu maior aliado oculto. Depois de tantos embates inúteis, deitou
exausta na relva verde do jardim e deixou acalentar-se a si própria. Chorou um
pranto comovido e aliviado numa cena digna de catarse para uma apropriada tarde
cinzenta de domingo de páscoa. Março merecia um final assim.
A segunda metade da vida é ainda melhor quando o peito não tem
porque esconder os espantos e as vertigens que o habitam e quando a alma já
coleciona mais rugas que a própria pele. Tinha certeza que só vence na vida a
pessoa que se descobre ingenuamente fazendo o que gosta. A vida discordava
insistentemente dela exigindo que seus argumentos fossem melhorados e não o tom
de sua voz elevado. Para cada franzido de testa, um resignado pedido de
desculpa sempre seria cobrado mais tarde.
Para ela a existência não era feita de ingressos gratuitos, lucros
vantajosos, feriados prolongados, temperaturas amenas, notas altas e noites
badaladas. A boêmia não passava de uma pracinha com jeito de interior, de um
sorvete de casquinha que a gente compra com o troco da padaria, de um passeio
de bicicleta debaixo de chuva fina, um moletom furado e céu nublado. Para
Luísa, o mais surpreendente da vida é saber aproveitar o toque acidental das
mãos geladas que se entrelaçam no cinema; a insônia criativa que nos surpreende
depois de um dia massacrante de trabalho; a frase que a gente ensaia pra falar,
mas gagueja no momento decisivo; a cerveja morna que se bebe num minúsculo
quarto e sala enquanto sonha com um apartamento refrigerado e atapetado de
desejos inconfessos; o ônibus superlotado com motorista mal educado que a gente
pega enquanto o pensamento divaga livremente por sonhos intercontinentais; o
atraso do voo que a gente nem liga só pelo direito de aproveitar o romantismo
da despedida que antecede o embarque.
Luísa não queria mais lamentos paralisantes. A vida não é um chocolate
ao leite. É sabor meio amargo parecendo gosto de despedida. O pior jeito de
saboreá-lo é não saber partir e o pior jeito de partir é não saber aonde se
quer chegar.
[Se o chocolate faz aumentar a sensação de
bem-estar eu não sei, mas pode fazer o desejo de escrever voltar...]
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Gerundismo- Ano 2013
Exercitando mais a autocrítica para ver se a vida ganha novos rumos.
Questionando se a ternura compensa ou se é uma luta solitária e
perdida desde o princípio.
Prometendo ressarcir o travesseiro pelos lamentos que ele aturou
pacientemente no último ano.
Jurando nunca mais admitir morrer na praia passando calor, com suor
escorrendo na testa, mãos calejadas e, ainda assim, vazias.
Guardando as olheiras como se fosse uma daquelas relíquias que a gente
mantém perto só por terem uma história comovente para contar.
Assumindo derrotas, fios brancos e uma tal de ansiedade que se
somatiza em dores chatas na coluna.
Negociando com a enxaqueca um justo período de trégua.
Rezando com quem precisa adquirir mais fé para abraçar a vida reconciliada, de cabeça erguida e mais madura.
Recitando um poema que me convença dos contrários que me fazem bem.
Dando “Bom-dia” ao que me presenteia de graça e “Até nunca mais” ao que
me cobra sem acrescentar.
Aconselhando as violetas da minha janela a serem menos tímidas e mais
corajosas como fazem os girassóis.
Redecorando o quarto como quem deseja aposentar velharias.
Escolhendo melhor o que comer e priorizando dormir.
Começando a vida profissional de médica como alguém que pretende recuperar diariamente os motivos primeiros dessa trajetória.
Querendo meu rosto estampado num sorriso desmedido e minha voz impressa numa
gargalhada capaz de acordar os japoneses.
Cuidando melhor de mim para não me arrepender amargamente depois.
Traçando sérias resoluções de vida com uma racionalidade nunca antes pretendida, mas aprendida recentemente à duras penas.
Brindando o presente, porque mesmo se nada der certo aos idiotas ainda sobram a ironia e o honrado título daqueles que, pelo menos, não atrapalham
o caminho de ninguém.
[Caro(a) leitor(a), celebre os anos ímpares, os gerúndios, os tempos verbais que criamos para
subverter o presente sublimando os quereres e as reinvenções de nós mesmos que
temos legítimo direito de morrer tentando.]
P.S.: O blog “Porta dos Fundos” encerra esse ano sabático aderindo
ao movimento “Fechado pra Balanço”. Esse espaço entrará em recesso por tempo indeterminado
numa tentativa sincera de manter-se vivo com alguma criatividade. A autora permitiu-se um tempo necessário para recuperar-se das exigências que o existir
tem imposto. Por uma questão de sobrevivência pessoal precisarei aprender a respirar com um pouco mais de paciência e de leveza. Talvez
volte a escrever. Pode ser também que a pausa seja prolongada e retorne apenas naqueles momentos que a esperança me faltar em níveis tão ameaçadores que eu já não suporte mais viver sem poesia e fique relendo (quem sabe revivendo!) o que já deixei aqui. Acredite... Eu não tenho nenhuma cópia da maioria
das postagens deixadas no blog e pretendo que continue assim. Talvez desista de vez e venha somente para tirá-lo definitivamente do ar. A vida é insuficiente mesmo. Vive sempre por aí nos cobrando mais insistência, mas é
o que temos afinal. Então, melhor tratar de viver antes que ela acabe!
sábado, 10 de novembro de 2012
Habilitação cardíaca
O coração é um
ser inapto à sinalização.
Não sabe aonde transita, mas chega lá mesmo assim.
Cansado de procurar coordenadas no chão,
termina sempre no mesmo vão de onde partiu.
As chegadas são iguais às largadas.
Só que mais desidratadas e exaustas que as partidas.
Nosso personagem de sentimentos tão nobres,
aproveita o breve sono da razão
e assume o comando da direção.
Enche a pista de postes de exclamação
e de reticentes e maiúsculos pontos de interrogação.
Estes mesmos que parecem um guarda-chuva,
mas não nos protegem das tempestades
nem das revoltosas desilusões do tempo.
Está escrito:
-Não ultrapasse na faixa contínua.
-Cuidado nas curvas fechadas com pista molhada.
-Ligue o farol nos dias de neblina.
Mas nosso imperfeito herói ignora
o letreiro luminoso com a palavra “PERIGO”.
Chega e entra sem licença poética...
Pede invariavelmente informações ao guardinha,
mas continua a ser perder na primeira esquina.
Pronto. Está feito o estrago.
Colisão frontal do desnudo ventrículo direito com o muro.
Depois saí meio atordoado e contudido,
tropeçando no próprio esboço de sorriso,
feito mais para dentro do que fora.
Promovera uma comovente e terna ocorrência policial
como só um idiota, contente e sarcástico, é capaz de fazer.
Por causa dele inventaram o seguro,
o reboque e o suporte avançado de vida.
Agradeçam-no, já!
Não sabe aonde transita, mas chega lá mesmo assim.
Cansado de procurar coordenadas no chão,
termina sempre no mesmo vão de onde partiu.
As chegadas são iguais às largadas.
Só que mais desidratadas e exaustas que as partidas.
Nosso personagem de sentimentos tão nobres,
aproveita o breve sono da razão
e assume o comando da direção.
Enche a pista de postes de exclamação
e de reticentes e maiúsculos pontos de interrogação.
Estes mesmos que parecem um guarda-chuva,
mas não nos protegem das tempestades
nem das revoltosas desilusões do tempo.
Está escrito:
-Não ultrapasse na faixa contínua.
-Cuidado nas curvas fechadas com pista molhada.
-Ligue o farol nos dias de neblina.
Mas nosso imperfeito herói ignora
o letreiro luminoso com a palavra “PERIGO”.
Chega e entra sem licença poética...
Pede invariavelmente informações ao guardinha,
mas continua a ser perder na primeira esquina.
Pronto. Está feito o estrago.
Colisão frontal do desnudo ventrículo direito com o muro.
Depois saí meio atordoado e contudido,
tropeçando no próprio esboço de sorriso,
feito mais para dentro do que fora.
Promovera uma comovente e terna ocorrência policial
como só um idiota, contente e sarcástico, é capaz de fazer.
Por causa dele inventaram o seguro,
o reboque e o suporte avançado de vida.
Agradeçam-no, já!
...porque a a vida é cafona, meu amor! Para ler ao som de "Tu És o MDC da Minha Vida" (Raul Seixas).
[Metalinguagem da metalinguagem: 1) O suporte avançado de vida, mais conhecido pela sigla em inglês ACLS, foi criado pela
American Heart Association e consiste numa série de protocolos com manobras médicas (invasivas ou não) realizadas na
tentativa estabilizar clinicamente um paciente durante atendimento hospitalar. 2) Nos traumatismos torácicos fechados envolvendo alta energia cinética podem ocorrer contusões miocárdicas, sendo o ventrículo direito a câmara cardíaca mais acometida.]
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Modus operandi
Não há serventia na poesia.
A questão central é para o que ela
não serve.
Qual seu acento de honra no campo
das inutilidades?
Ao contrário do que se possa imaginar,
ela não aumenta teu poder de
sedução nem movimenta tua vida amorosa.
Pode inclusive tornar-te pouco
prática para as coisas práticas da vida.
Ela não prepara tua torrada de manhã,
como também não te defende na frente do chefe dos teus constantes atrasos.
O mais certo é que ela não se
fará de rogada
na hora de servir teu pranto de bandeja no
jantar.
Veja bem...
Clarice parecia uma mulher irremediavelmente noturna e melancólica,
Bandeira confessou ter medo da
morte mesmo depois de conhecer a Pasárgada
e nem o Tejo e os quatro heterônimos salvaram
o brilhante poeta português
da desassossegada saudade de sua aldeia.
Não se iluda.
O eu lírico viverá duelando com a pessoa
jurídica.
A poesia não arruma tua cama, não
frita teu hambúrguer nem gela tua bebida.
Agora, para todo o resto ela
serve.
E muito bem!
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