domingo, 5 de janeiro de 2020

Início de ano (novo)


O ano começou com uma folga triste e melancólica. Elaborei iniciativas para romper com o desamparo, mas recuei diante das filas intermináveis nos cafés e cinemas nessa época de férias escolares.

Ontem, passei mais de uma hora na livraria procurando solitariamente encontrar você em poemas e contos de amor. As florestas da Austrália se consumindo em chamas e o meu peito como broto verde ardendo em saudades do que a gente não viveu, como se as luzes do Natal ainda continuassem acesas cintilando desejos incandescentes dentro de mim. O mundo em pânico com receio de uma nova guerra e eu imaginando como solucionar nossos desencontros, como te enlaçar nos meus braços, como desarmar nossos medos, como desatar nossos nós, como encurtar a distância geográfica entre as nossas bocas, como aproximar o continente dos nossos sentimentos, como apaziguar nossas dúvidas e como selar um tratado de paz com essa imensa falta que você me faz.

O final de semana passou como uma piscadela juvenil. Muito provavelmente você nem irá ler esses escritos desmanchados de amor. Deve, penso eu, estar terminando o domingo num desses sofisticados cafés da cidade lotados de gente com um sorriso leve no rosto, enquanto eu estou aqui pensando se ainda vale a pena tirar o pijama antes que o dia acabe. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Drive thru do Habib's

Você mora nas minhas lembranças mais inusitadas
sem nunca ainda, por ventura, ter ocupado a minha vida
porque é você que me assalta os pensamentos
e rouba minha imaginação na fila de espera do drive thru do Habib's,
enquanto escrevo esse poema no meu bloco de notas
aproveitando os últimos 15% de bateria que o meu corpo dispõe,
numa noite de domingo no caminho solitário de volta para casa
(que também podia ser sua),
depois de um longo e exaustivo final de semana de trabalho.

sábado, 27 de julho de 2019

Devaneios insones- Notívagos também amam

Se acordar no meio da noite fosse raro, eu não estaria aqui te dizendo tudo isso.
A verdade é que a noite funciona como um buraco negro desafiando a metafísica e nos engolindo para dentro dele.
As tarefas do dia seguinte não são mais urgentes do que a necessidade de reconhecer o quanto você ocupa o silêncio dessa madrugada. 
Sua foto está pregada na geladeira da minha cozinha ao lado de uma lista de compras que eu ainda não tive tempo de fazer. Penso no quanto você é fundamental para estar ocupando aquele lugar ali ao lado do lembrete sobre a minha necessidade vital de comprar café antes que ele acabe.   
Lembro que você dorme com lábios semicerrados, tem mania de suspirar quando o cansaço pesa e que gosta de travesseiro baixo porque sente dor nas costas. Tive vontade de te mandar uma mensagem dizendo que estou acordada pensando em você nesse momento, porém são três da manhã. Apesar da hora inapropriada, não sinto um impedimento definitivo e decidi não reprimir meu desejo. Escrevo que estou vagando pela casa sem sono tomando uma água gelada naquela caneca que você me deu de presente e pensando nos detalhes da última vez que nos vimos.
Muito provavelmente você verá essa mensagem somente pela manhã ao acordar.
Não tem problema, não tenho pressa. Pode ser no seu tempo.
Bom dia, amor!

domingo, 21 de abril de 2019

Trombofilia

Qual a consistência material do que você sente?
Prefere a fluidez de um sangue ralo ou a espessura de um trombo recente?
Você se contenta com simplesmente viver ou precisa pensar nas propriedades farmacológicas do que vive sentindo?
Você se orgulha mais de ter um corpo esguio ou um coração liquefeito que mal para em pé diante de tanto solavanco?
Quanto o seu histórico de tromboses venosas diz da sua trajetória de obstáculos pessoais?
Qual a composição do seu plasma?
Adianta anticoagular se não for recanalizar?
Qual a sua capacidade de construir colaterais?
O que mais te faz mal: turbulência ou estase?
Qual a reologia da sua superfície?
Já conseguiu aparar aquelas arestas? 
Consegue superar a fragilidade de uma hemácia?
“To bleed” e “to bless” só rimam ou conjugam dores semelhantes nos seus tempos verbais?

Não se preocupe. 
Não precisa responder tudo agora. 
Melhor acudir o leite que derramou sobre o fogão. 
Esse é o preço que se paga por ousar se distrair tempo demais com a poesia.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Sobre amar em tempos de ódio

Leio um poema de Drummond e antes da metade eu já me recordo de você. 
(Aspirante à poeta, professor, admirador de Paulo Freire). 
Abro uma lata de leite condensado e antes da culpa bater me lembro de você.
(Vegano, protetor dos animais, ambientalista).
Tem tanto de você no formato cômico que as nuvens vão tomando no céu e naqueles documentários sobre a origem do universo, placas tectônicas, terremotos e maremotos, história dos dinossauros e dos povos mesopotâmicos.
(Cinéfilo, contra-cultura, tropicalista, hippie).
Tenho a impressão até que você mora em algum daqueles solos de guitarra do rock britânico dos anos 80, numa rádio retro que pouca gente conhece ou no meu quarto quando a luz se apaga, mas o sono não vem.
(Artista, respeitador de lugar de fala, insone).
Toda vez que o tempo muda de repente, nos banhos de chuva imprevistos que a gente leva sem querer, nessas surpresas miúdas que só acontecem no entardecer, no final do plantão tomando o caminho de volta pra casa.

(Distraído, workaholic, endividado).
Sempre quando vejo fumaça saindo do chá de hortelã, na confusão de sentimentos que o agridoce me provoca, quando me atraso porque o despertador não tocou, quando o expediente acaba ou quando falo uma redundância sem perceber.
(Tímido de cabelo bagunçado, classe trabalhadora).

Lembrar é uma forma de resistir ao esquecimento.  
Mentiram pra gente quando nos fizeram acreditar que a gente ama com o coração. 
A gente ama mesmo é com a memória. 
Aquela que temos ou aquela que inventamos para sobreviver aos dias sem nenhum sentido.