Um grupo de pesquisadores decidiu fazer um experimento científico:
uma extensa revisão de documentos históricos para descobrir a origem misteriosa do amor.
Em qual contexto e língua havia sido escrita a primeira declaração de amor pela espécie humana?
Teriam sido os gregos para superar complexos dilemas éticos?
Seriam os egípcios para se defender da inexorável morte?
Quem sabe os indianos para se aproximar de divindades inatingíveis?
Talvez os povos pré-colombianos para superar os desafios da altitude
e entender melhor a dimensão cíclica da natureza?
Ou ainda os esquimós para se agasalhar do frio inóspito?
Não, nenhum deles teve essa prerrogativa literária.
O amor havia sido pronunciado de forma inédita por uma mulher comum.
Dona Maria, aposentada e viúva, que aprendeu ontem a usar o WhatsApp.
Ela ficou encantada com a possibilidade de mandar um emoji de coração para o crush secreto.
Aquele que é seu vizinho há 40 anos,
sempre a ajuda distribuindo presentes
para as crianças do bairro nos domingos de Páscoa
e faz a melhor limonada que ela já tomou na vida.
Num mundo marcado pela diversidade interpõe-se a divergência entre pontos de vista. Serão sempre pontos de vista a partir de um PONTO - seja o da porta da frente, seja o da porta dos fundos. É nesse espaço de escolhas que a arte se irrompe e transfigura-se em seu poder de recriar a vida, transformar as mentes, afetar as sensibilidades, encurtar as distâncias e encontrar os olhares. Se desejar entrar, a porta está aberta. Achegue-se mais e seja bem-vindo(a)!
sábado, 7 de março de 2020
domingo, 5 de janeiro de 2020
Início de ano (novo)
O ano começou com uma folga
triste e melancólica. Elaborei iniciativas para romper com o desamparo, mas
recuei diante das filas intermináveis nos cafés e cinemas nessa época de férias escolares.
Ontem, passei mais de uma hora na
livraria procurando solitariamente encontrar você em poemas e contos de amor. As
florestas da Austrália se consumindo em chamas e o meu peito como broto verde
ardendo em saudades do que a gente não viveu, como se as luzes do Natal ainda
continuassem acesas cintilando desejos incandescentes dentro de mim. O mundo em
pânico com receio de uma nova guerra e eu imaginando como solucionar nossos
desencontros, como te enlaçar nos meus braços, como desarmar nossos medos, como
desatar nossos nós, como encurtar a distância geográfica entre as nossas
bocas, como aproximar o continente dos nossos sentimentos, como apaziguar
nossas dúvidas e como selar um tratado de paz com essa imensa falta que você me
faz.
O final de semana passou como uma
piscadela juvenil. Muito provavelmente você nem irá ler esses escritos desmanchados
de amor. Deve, penso eu, estar terminando o domingo num desses sofisticados cafés
da cidade lotados de gente com um sorriso leve no rosto, enquanto eu estou aqui pensando se ainda vale a pena tirar o pijama antes que o
dia acabe.
segunda-feira, 30 de setembro de 2019
Drive thru do Habib's
Você mora nas minhas lembranças mais inusitadas
sem nunca ainda, por ventura, ter ocupado a minha vida
porque é você que me assalta os pensamentos
e rouba minha imaginação na fila de espera do drive thru do Habib's,
enquanto escrevo esse poema no meu bloco de notas
aproveitando os últimos 15% de bateria que o meu corpo dispõe,
numa noite de domingo no caminho solitário de volta
para casa
(que também podia ser sua),
depois de um longo e exaustivo final de semana de trabalho.
sábado, 27 de julho de 2019
Devaneios insones- Notívagos também amam
Se acordar no meio da noite fosse raro, eu não estaria
aqui te dizendo tudo isso.
A verdade é que a noite funciona como um buraco negro
desafiando a metafísica e nos engolindo para dentro dele.
As tarefas do dia seguinte não são mais urgentes do que a
necessidade de reconhecer o quanto você ocupa o silêncio dessa madrugada.
Sua foto
está pregada na geladeira da minha cozinha ao lado de uma lista de compras que
eu ainda não tive tempo de fazer. Penso no quanto você é fundamental para estar ocupando aquele lugar ali ao lado do
lembrete sobre a minha necessidade vital de comprar café antes que ele acabe.
Lembro que você dorme com lábios semicerrados, tem mania de
suspirar quando o cansaço pesa e que gosta de travesseiro baixo porque sente dor
nas costas. Tive vontade de te mandar uma mensagem dizendo que estou acordada
pensando em você nesse momento, porém são três da manhã. Apesar da hora inapropriada, não
sinto um impedimento definitivo e decidi não reprimir meu desejo. Escrevo que estou vagando pela casa sem sono
tomando uma água gelada naquela caneca que você me deu de presente e pensando nos detalhes da última vez
que nos vimos.
Muito provavelmente você verá essa mensagem somente pela
manhã ao acordar.
Não tem problema, não tenho pressa. Pode ser no seu tempo.
Bom dia, amor!
domingo, 21 de abril de 2019
Trombofilia
Qual a consistência material do que você sente?
Prefere a fluidez de um sangue ralo ou a espessura de um trombo recente?
Você se contenta com simplesmente viver ou precisa pensar nas propriedades farmacológicas do que vive sentindo?
Você se orgulha mais de ter um corpo esguio ou um coração liquefeito que mal para em pé diante de tanto solavanco?
Quanto o seu histórico de tromboses venosas diz da sua trajetória de obstáculos pessoais?
Qual a composição do seu plasma?
Adianta anticoagular se não for recanalizar?
Qual a sua capacidade de construir colaterais?
O que mais te faz mal: turbulência ou estase?
Qual a reologia da sua superfície?
Já conseguiu aparar aquelas arestas?
Consegue superar a fragilidade de uma hemácia?
“To bleed” e “to bless” só rimam ou conjugam dores semelhantes nos seus tempos verbais?
Não se preocupe.
Não precisa responder tudo agora.
Melhor acudir o leite que derramou sobre o fogão.
Esse é o preço que se paga por ousar se distrair tempo demais com a poesia.
Prefere a fluidez de um sangue ralo ou a espessura de um trombo recente?
Você se contenta com simplesmente viver ou precisa pensar nas propriedades farmacológicas do que vive sentindo?
Você se orgulha mais de ter um corpo esguio ou um coração liquefeito que mal para em pé diante de tanto solavanco?
Quanto o seu histórico de tromboses venosas diz da sua trajetória de obstáculos pessoais?
Qual a composição do seu plasma?
Adianta anticoagular se não for recanalizar?
Qual a sua capacidade de construir colaterais?
O que mais te faz mal: turbulência ou estase?
Qual a reologia da sua superfície?
Já conseguiu aparar aquelas arestas?
Consegue superar a fragilidade de uma hemácia?
“To bleed” e “to bless” só rimam ou conjugam dores semelhantes nos seus tempos verbais?
Não se preocupe.
Não precisa responder tudo agora.
Melhor acudir o leite que derramou sobre o fogão.
Esse é o preço que se paga por ousar se distrair tempo demais com a poesia.
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