segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Desenlace

O amor é um cálculo que se hospeda nos seus rins

discretamente sem que você perceba.

Daí um belo dia resolve te abandonar, 

sem aviso prévio, migrando violentamente 

pelo ureter em direção à bexiga.

Uma pedra áspera de cálcio de alguns milímetros 

que despenca rolando montanha abaixo,

como Sísifo às avessas, 

desafiando sua empáfia de controle.

Te coloca em posição fetal

se contorcendo na cama

urinando sangue

enquanto você implora por analgésicos

associados com alguma coisa há mais

que te faça parar de vomitar.  


Drummond disse no livro mais erótico de sua obra, 

aquele que lhe faltou coragem de publicar enquanto estava vivo, 

que o amor, como braseiro, lhe dava, via orgasmo, 

a explicação do mundo. 

Desde então, quase ninguém mais pensa assim. 

Essa noite, por exemplo, 

me equivoquei de novo redondamente 

ao sonhar que te pegava no banheiro, 

quando fui acordada pelos gritos do vizinho pedindo socorro 

porque estava infartando no apartamento do lado.  


Quando eu digo “amor!” e você me responde com “hum?!”, 

o que nos garante que estamos falando da mesma coisa?


sábado, 7 de março de 2020

Declaração de Humor

Um grupo de pesquisadores decidiu fazer um experimento científico:
uma extensa revisão de documentos históricos para descobrir a origem misteriosa do amor.
Em qual contexto e língua havia sido escrita a primeira declaração de amor pela espécie humana? 
Teriam sido os gregos para superar complexos dilemas éticos?
Seriam os egípcios para se defender da inexorável morte?
Quem sabe os indianos para se aproximar de divindades inatingíveis?
Talvez os povos pré-colombianos para superar os desafios da altitude 
e entender melhor a dimensão cíclica da natureza?
Ou ainda os esquimós para se agasalhar do frio inóspito? 

Não, nenhum deles teve essa prerrogativa literária.
O amor havia sido pronunciado de forma inédita por uma mulher comum.
Dona Maria, aposentada e viúva, que aprendeu ontem a usar o WhatsApp.
Ela ficou encantada com a possibilidade de mandar um emoji de coração para o crush secreto.
Aquele que é seu vizinho há 40 anos, 
sempre a ajuda distribuindo presentes 
para as crianças do bairro nos domingos de Páscoa
e faz a melhor limonada que ela já tomou na vida.

domingo, 5 de janeiro de 2020

Início de ano (novo)


O ano começou com uma folga triste e melancólica. Elaborei iniciativas para romper com o desamparo, mas recuei diante das filas intermináveis nos cafés e cinemas nessa época de férias escolares.

Ontem, passei mais de uma hora na livraria procurando solitariamente encontrar você em poemas e contos de amor. As florestas da Austrália se consumindo em chamas e o meu peito como broto verde ardendo em saudades do que a gente não viveu, como se as luzes do Natal ainda continuassem acesas cintilando desejos incandescentes dentro de mim. O mundo em pânico com receio de uma nova guerra e eu imaginando como solucionar nossos desencontros, como te enlaçar nos meus braços, como desarmar nossos medos, como desatar nossos nós, como encurtar a distância geográfica entre as nossas bocas, como aproximar o continente dos nossos sentimentos, como apaziguar nossas dúvidas e como selar um tratado de paz com essa imensa falta que você me faz.

O final de semana passou como uma piscadela juvenil. Muito provavelmente você nem irá ler esses escritos desmanchados de amor. Deve, penso eu, estar terminando o domingo num desses sofisticados cafés da cidade lotados de gente com um sorriso leve no rosto, enquanto eu estou aqui pensando se ainda vale a pena tirar o pijama antes que o dia acabe. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Drive thru do Habib's

Você mora nas minhas lembranças mais inusitadas
sem nunca ainda, por ventura, ter ocupado a minha vida
porque é você que me assalta os pensamentos
e rouba minha imaginação na fila de espera do drive thru do Habib's,
enquanto escrevo esse poema no meu bloco de notas
aproveitando os últimos 15% de bateria que o meu corpo dispõe,
numa noite de domingo no caminho solitário de volta para casa
(que também podia ser sua),
depois de um longo e exaustivo final de semana de trabalho.

sábado, 27 de julho de 2019

Devaneios insones- Notívagos também amam

Se acordar no meio da noite fosse raro, eu não estaria aqui te dizendo tudo isso.
A verdade é que a noite funciona como um buraco negro desafiando a metafísica e nos engolindo para dentro dele.
As tarefas do dia seguinte não são mais urgentes do que a necessidade de reconhecer o quanto você ocupa o silêncio dessa madrugada. 
Sua foto está pregada na geladeira da minha cozinha ao lado de uma lista de compras que eu ainda não tive tempo de fazer. Penso no quanto você é fundamental para estar ocupando aquele lugar ali ao lado do lembrete sobre a minha necessidade vital de comprar café antes que ele acabe.   
Lembro que você dorme com lábios semicerrados, tem mania de suspirar quando o cansaço pesa e que gosta de travesseiro baixo porque sente dor nas costas. Tive vontade de te mandar uma mensagem dizendo que estou acordada pensando em você nesse momento, porém são três da manhã. Apesar da hora inapropriada, não sinto um impedimento definitivo e decidi não reprimir meu desejo. Escrevo que estou vagando pela casa sem sono tomando uma água gelada naquela caneca que você me deu de presente e pensando nos detalhes da última vez que nos vimos.
Muito provavelmente você verá essa mensagem somente pela manhã ao acordar.
Não tem problema, não tenho pressa. Pode ser no seu tempo.
Bom dia, amor!