Num mundo marcado pela diversidade interpõe-se a divergência entre pontos de vista. Serão sempre pontos de vista a partir de um PONTO - seja o da porta da frente, seja o da porta dos fundos. É nesse espaço de escolhas que a arte se irrompe e transfigura-se em seu poder de recriar a vida, transformar as mentes, afetar as sensibilidades, encurtar as distâncias e encontrar os olhares. Se desejar entrar, a porta está aberta. Achegue-se mais e seja bem-vindo(a)!
Enfim chegaram seus vinte e oito
anos... Inevitável o clima de crise
existencial, mas perceba que as aflições são circunstanciais e podem ser abrandadas quando se
compreende que há, pelo menos, duas maneiras sábias de conceber a passagem do tempo. Uma
filosófica e outra prática. Como uma brisa leve que acaricia teus cabelos ou
como uma rajada impetuosa de vento que destelha a vida. O importante é passar
por cada experiência proporcionada com a transitoriedade que cada uma merece. Não se iluda nem se
aprisione num concretismo pessimista.
Que a maturidade do
presente não oculte teu riso irônico quando apontares teus próprios
defeitos nem te faça esquecer que o melhor aconchego é o colo que a gente mesmo
se oferece. É seguramente melhor ficar com rosto vermelho
por dois minutos do que com riso amarelo para o resto da vida. Saiba também que teus consideráveis cabelos brancos
não escondem a menina amedrontada que ainda teima em viver em você. Aquela
mesma criança de pijama florido que dormia com luz acesa pelo medo do escuro é
a mulher supostamente segura e independente de hoje que, de vez em quando, ainda chora pelos cantos dramaticamente agarrada
a um disco do Chico ou a um verso de Leminski.
Que você opte sempre
pelo certo, mesmo que dê mais trabalho. Que a medicina quevocê exerce seja cada dia mais tecnicamente
primorosa e humanamente flexível. Peçotambém
que nunca te falte disposição para fazer, sem culpa, um brigadeiro de panelaapós um dia exaustivo de trabalho. Reverencie
a vida como você se comprometeu afazer
desde o princípio de tudo. Entenda, de uma vez por todas, que as coisas só darão
certo quando você conseguir equilibrar o lado “Clarice Lispector” com o lado“Drummond”. Poucos conseguem entender que
a vida é um grande karaokê de óperas. Leva tempo para apurar os ouvidos. Então,
tenha calma...
Durma mais cedo, amplie sua
coleção de pijamas, continue escrevendo cartas de amor... E apresente Cartola
aos teus filhos. Eles merecem ouvi-lo! Você sabe que crescer não significa só
abandonar o conforto do “all star” e começar a usar salto alto, mas garantir
que a poesia viva mais em teu peito que nas tuas gavetas. A vida não oferece alternativas: ou você segue, ou você segue...
Para tudo isso só me resta
desejar-te força e coragem com um abraço profundamente acolhedor, afinal nós
merecemos isso.
Da sua amiga Patrícia, de algum lugar do futuro.
Essa trilha sonora tem como único objetivo te recordar do conselho que você adotou como lema de vida: " Minha pequena Amélie, seus ossos não são feitos de vidro e você pode aguentar os golpes da vida”.
“A vida
começa quando a gente compreende que ela não dura muito”. Millôr Fernandes
Comemoro
hoje meu vigésimo sétimo aniversário. Ou seria meu quadragésimo? Tudo depende
de quanto tempo deixei de viver nos últimos anos. O que posso afirmar
sinceramente é que a minha idade nunca combinou comigo. Acho até que já nasci com
certidão de velhice e que minha alma veio lá dos anos 70 (Sabe, uma espécie de "Velha e Louca" como diz uma doce canção por
aí?!).
Escolhi a roupa, tomei banho, sequei o cabelo e retoquei as
olheiras. Acho até que essas nem Deus consegue mais dar jeito. Separei também
para usar aquele colar com conchas que o mar da saudade um dia me trouxe.
Começo o dia respondendo com voz firme ao chamado da vida: “Presente. Cá estou!”
Encaro-me no espelho do banheiro enquanto escovo os dentes e
percebo que já amanheci tarde. Tento descobrir no que me tornei após tantos
percursos acidentais, tantos deslizes, tantos esquecimentos, tantos afetos,
tantos amores. Alma encharcada, repleta de chão, desistência completa de
qualquer ideia conformada de me adiar mais uma vez. A vida é assim mesmo tão
urgente ou sou eu que ando perdida em suas reticentes vírgulas? Suspiro fundo,
pensativa e calada, ao invés de responder.
Quero um dia de interjeição. Dizer um sonoro e convicto “alto lá”
ao diploma do fracasso e ao chute no traseiro. Quero a arquitetura inventiva de
dias que ainda não aconteceram, mas gelam as minhas mãos, trêmulas como de uma
criança, de tanta emoção incontida.
Sopro as velinhas do bolo imaginário que eu mesma preparei usando
como ingredientes as insatisfações que acumulei ao longo do meu caminho. Cara
feia agora é doce de leite e o fracasso, a cerejinha de enfeite final. A
receita da vida, às vezes, requer um recheio de dúvidas inconvenientes e um
sabor agridoce de cinismo. Antes de sair de casa, tomei café sentada ali,
sozinha, na minha gelada cozinha. Depois caí na gargalhada pensando na meia
dúzia de planos que eu havia projetado para concluir antes dos 30 anos. A vida
me ensinou a duras penas a desengavetar a poesia, mesmo que ela continue sendo
incorrigivelmente tímida e triste. Quem mandou Drummond aparecer na minha vida
aos 13 anos.
Descobri, nessa altura da vida, que ironizar-se é o melhor
presente que alguém pode dar a si mesmo. Decidi, finalmente, acatar o
conselho insistente e sábio daquele anjo torto que vive na sombra mansa desse
vasto mundo a me dizer:
-Vai, Patrícia, ser gauche na vida!
E agora, com licença, que eu vou ali errar um pouco mais.
P.S.:
Descobrir que você nasceu no mesmo dia em que foi instituído o horário de
verão no Brasil pode dizer muito da sua própria personalidade. Talvez isso
justifique, em grande parte, a minha inadequação com as horas e a constante
predileção por esse jeito de fim de tarde que a vida tem. Para encerrar, a
trilha sonora escolhida para hoje...
Entregue-se- Tiê
Velha e Louca- Mallu Magalhães
Eu quero ser feliz agora- Oswaldo Montenegro
Deus me proteja- Chico César
O vencedor- Los Hermanos
“Aniversário
é uma festa para te lembrar do que resta”