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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Sobre setembros


O tempo tem uma espécie de soberania incontestável.
Em sua genética incalculável e natureza indomável,
age desafiando os ensimesmados herméticos
a contestar a própria previsibilidade matemática.

Sua tarefa existencial é ensinar que o ponteiro da balança
não acusa o peso que se carrega na alma
mesmo quando se paga caro por excesso de bagagem
ou se cansa da longa estrada no meio da travessia.

O tempo dita as regras que você segue sem perceber...
Fala alto, grita com você!
Seja com olhos marejados
ou com um sorriso no canto dos lábios,
esfrega verdades na sua cara.
Depois, te liga perguntando à quais constatações você chegou.

Cada dia uma menina tornada adulta.
Barco navegante ao léu, bússola no breu.
Desatino, destino solitário em que sentido for.
Terra firme à vista por tempo provisório, analógico corretor.
Réu pedindo indulto, cobertor.
Tiro que erra o alvo, por um triz.
Rosa de amor, saliente cicatriz.

A partir de hoje, se o tempo quiser me enganar,
vai ter que me encarar de frente
olhando no fundo dos meus olhos...


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Carta para a aniversariante do dia

Querida Patrícia,
     Enfim chegaram seus vinte e oito anos... Inevitável o clima de crise existencial, mas perceba que as aflições são circunstanciais e podem ser abrandadas quando se compreende que há, pelo menos, duas maneiras sábias de conceber a passagem do tempo. Uma filosófica e outra prática. Como uma brisa leve que acaricia teus cabelos ou como uma rajada impetuosa de vento que destelha a vida. O importante é passar por cada experiência proporcionada com a transitoriedade que cada uma merece. Não se iluda nem se aprisione num concretismo pessimista.
     Que a maturidade do presente não oculte teu riso irônico quando apontares teus próprios defeitos nem te faça esquecer que o melhor aconchego é o colo que a gente mesmo se oferece. É seguramente melhor ficar com rosto vermelho por dois minutos do que com riso amarelo para o resto da vida. Saiba também que teus consideráveis cabelos brancos não escondem a menina amedrontada que ainda teima em viver em você. Aquela mesma criança de pijama florido que dormia com luz acesa pelo medo do escuro é a mulher supostamente segura e independente de hoje que, de vez em quando, ainda chora pelos cantos dramaticamente agarrada a um disco do Chico ou a um verso de Leminski.
     Que você opte sempre pelo certo, mesmo que dê mais trabalho. Que a medicina que você exerce seja cada dia mais tecnicamente primorosa e humanamente flexível. Peço também que nunca te falte disposição para fazer, sem culpa, um brigadeiro de panela após um dia exaustivo de trabalho. Reverencie a vida como você se comprometeu a fazer desde o princípio de tudo. Entenda, de uma vez por todas, que as coisas só darão certo quando você conseguir equilibrar o lado “Clarice Lispector” com o lado “Drummond”. Poucos conseguem entender que a vida é um grande karaokê de óperas. Leva tempo para apurar os ouvidos. Então, tenha calma...
     Durma mais cedo, amplie sua coleção de pijamas, continue escrevendo cartas de amor... E apresente Cartola aos teus filhos. Eles merecem ouvi-lo! Você sabe que crescer não significa só abandonar o conforto do “all star” e começar a usar salto alto, mas garantir que a poesia viva mais em teu peito que nas tuas gavetas.

     A vida não oferece alternativas: ou você segue, ou você segue...
    Para tudo isso só me resta desejar-te força e coragem com um abraço profundamente acolhedor, afinal nós merecemos isso.
     Da sua amiga Patrícia, de algum lugar do futuro. 


Essa trilha sonora tem como único objetivo te recordar do conselho que você adotou como lema de vida: " Minha pequena Amélie, seus ossos não são feitos de vidro e você pode aguentar os golpes da vida”.

“A vida começa quando a gente compreende que ela não dura muito”. Millôr Fernandes

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Concluídos 27%


     Comemoro hoje meu vigésimo sétimo aniversário. Ou seria meu quadragésimo? Tudo depende de quanto tempo deixei de viver nos últimos anos. O que posso afirmar sinceramente é que a minha idade nunca combinou comigo. Acho até que já nasci com certidão de velhice e que minha alma veio lá dos anos 70 (Sabe, uma espécie de "Velha e Louca" como diz uma doce canção por aí?!).

     Escolhi a roupa, tomei banho, sequei o cabelo e retoquei as olheiras. Acho até que essas nem Deus consegue mais dar jeito. Separei também para usar aquele colar com conchas que o mar da saudade um dia me trouxe. Começo o dia respondendo com voz firme ao chamado da vida: “Presente. Cá estou!”


     Encaro-me no espelho do banheiro enquanto escovo os dentes e percebo que já amanheci tarde. Tento descobrir no que me tornei após tantos percursos acidentais, tantos deslizes, tantos esquecimentos, tantos afetos, tantos amores. Alma encharcada, repleta de chão, desistência completa de qualquer ideia conformada de me adiar mais uma vez. A vida é assim mesmo tão urgente ou sou eu que ando perdida em suas reticentes vírgulas? Suspiro fundo, pensativa e calada, ao invés de responder.


     Quero um dia de interjeição. Dizer um sonoro e convicto “alto lá” ao diploma do fracasso e ao chute no traseiro. Quero a arquitetura inventiva de dias que ainda não aconteceram, mas gelam as minhas mãos, trêmulas como de uma criança, de tanta emoção incontida.


     Sopro as velinhas do bolo imaginário que eu mesma preparei usando como ingredientes as insatisfações que acumulei ao longo do meu caminho. Cara feia agora é doce de leite e o fracasso, a cerejinha de enfeite final. A receita da vida, às vezes, requer um recheio de dúvidas inconvenientes e um sabor agridoce de cinismo. Antes de sair de casa, tomei café sentada ali, sozinha, na minha gelada cozinha. Depois caí na gargalhada pensando na meia dúzia de planos que eu havia projetado para concluir antes dos 30 anos. A vida me ensinou a duras penas a desengavetar a poesia, mesmo que ela continue sendo incorrigivelmente tímida e triste. Quem mandou Drummond aparecer na minha vida aos 13 anos.

     Descobri, nessa altura da vida, que ironizar-se é o melhor presente que alguém pode dar a si mesmo.  Decidi, finalmente, acatar o conselho insistente e sábio daquele anjo torto que vive na sombra mansa desse vasto mundo a me dizer:


-Vai, Patrícia, ser gauche na vida!


     E agora, com licença, que eu vou ali errar um pouco mais.



P.S.:  Descobrir que você nasceu no mesmo dia em que foi instituído o horário de verão no Brasil pode dizer muito da sua própria personalidade. Talvez isso justifique, em grande parte, a minha inadequação com as horas e a constante predileção por esse jeito de fim de tarde que a vida tem. Para encerrar, a trilha sonora escolhida para hoje...


Entregue-se- Tiê


Velha e Louca- Mallu Magalhães


Eu quero ser feliz agora- Oswaldo Montenegro


Deus me proteja- Chico César


O vencedor- Los Hermanos



“Aniversário é uma festa para te lembrar do que resta” 

Millôr Fernandes