domingo, 12 de fevereiro de 2012

Inconcordantes

No princípio era só o verbo
latente em estado de silêncio.
Depois veio o sujeito
e com ele todos os erros de concordância.

Você chegou tirando histórias fantásticas
de dentro da sua mochila cheia de estilo,
como um narrador habilidoso de lendas encantadas.
Seu all star azul parecia o par perfeito para o meu preto de cano alto.
No fim, adoçou-me a boca enquanto nos divertíamos
tentando conjugar nossas agendas.
Depois, você saiu, num dia nublado, sem maiores explicações.
E me fez descobrir a tristeza,
essa vontade estranha de algo que ainda não inventaram.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Quase ao meu lado

Um sorriso de anatomia assim distante
fez a sombra dessa saudade de aspecto constante.
Se quiseres acender o sol da minha janela, 
prometo amanhecer qual vistoso girassol.
No entanto, preferistes me deixar sem viço.
Murchei de futuro.

Relembro o endereço, a falta de começo,
a  ausência do recado apaixonado na geladeira dos segredos.
Meu mundo de novo nublado,  
a espera do teu abraço com calor de pijama acordado.

Mais um eterno final de semana sem senso de humor...
Clichê por clichê, o que vale mesmo é o que eu declaro:
 Fica!
Só mais um pouco ao meu lado.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Gerundismo- Ano 2012

Jurando reparar mais na amplidão das janelas abertas.
Prometendo nunca mais dormir sem ter aproveitado suficientemente o dia.
Apostando cumprir sem culpa o mais irremediável dos desejos.
Sonhando em ter poucos, mas raros amigos.
Deletando os fantasmas que assombram os arredores da casa.
Reverenciando meus autores prediletos pela presença nas horas de tédio e medo.
Exigindo boa companhia para ouvir meus blues favoritos até o cair da tarde.
Encontrando nas derrotas os verdadeiros motivos para lutar.
Debochando de cada “não” sem uma razão bem convincente.
Tentando conciliar a agenda do ser com o fazer.
Transgredindo as roupas apertadas e as cobranças infundadas.
Projetando menos metas e arriscando mais no imprevisível.
Reconhecendo que sou tímida demais para declarar o amor que a poesia sublima.
Exigindo que o Cupido acerte a mira de uma vez por todas.
Rezando para que a medicina não me enlouqueça nos próximos dias.
Superando o receio de ver os armários abertos e a curiosidade pela geladeira dos amigos.
Prometendo arrumar religiosamente a cama, abrir as cortinas mais cedo e a não trocar o almoço por um mísero sanduíche.
Descobrindo que sou cômica demais para viver paixões avassaladoras.
Recusando a pagar mais do que as coisas valem.
Despachando os aborrecimentos para um lugar bem distante.
Fazendo as pazes com meu auto-retrato sem aquele desespero sem sentido.
Esvaziando a bolsa das inutilidades de sempre.
Declarando-me absurdamente apressada para ser feliz.


Leia também o Gerundismo que inaugurou 2011 em: 
http://portaodosfundos.blogspot.com/2010/12/gerundismo.html 

Invente sua lista de boas intenções, caro(a) leitor(a). Abuse dos verbos, dos tropeços linguísticos e reinvente-se no próximo ano.

domingo, 13 de novembro de 2011

Mito

A expressão do agora é acintosamente dura.
Nela, um rosto disforme - o meu -
e o desalento de olhos tão distantes – os seus.
Ah, Platão...
Ah, se tu soubesses
como amor e dor habitam ainda na mesma bat caverna
brincaríamos eternamente de fazer sombra de bichinhos nas paredes.
Certamente prestaríamos um culto romântico e divertido a Zeus
para que nunca nos deixasse faltar o céu embaixo dos nossos pés
para pularmos amarelinha nas estrelas de novembro até cansarmos,
adormecidos e apaixonados, nos aposentos de Afrodite.
Conversaríamos na linguagem lúdica
dos amores não correspondidos e mal resolvidos.
Não satisfeitos pelo corpo,
quiçá sublimados pelas metáforas de Camões.
E nos consolaríamos provisoriamente dessa angústia interminável.
Essa vontade de estar perto, se longe.
Ou mais perto, se perto.
Mesmo que o perto seja só a minha imaginação distorcida
refletida na parede encardida do meu quarto.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Sacudidelas 2

       O “Sacudidelas” é uma sessão desse blog com cara de consultório poético. Um despretensioso convite para se aconchegar ao divã da literatura através do exercício criativo e saboroso da intertextualidade.  
     Hoje, proponho que nossos analistas de luxo sejam Rubem Braga com a crônica “A casa” e Cora Coralina com o poema “Das pedras” (veja também o Sacudidelas 1, que trata da idealização amorosa, em http://portaodosfundos.blogspot.com/2009/10/sacudidelas.html) .

     Onde será que estão os tristonhos gritando seus amores não correspondidos? Onde eles teriam se refugiado para escrever seus versos ridículos? Em qual sobrado habitam?

     Quem sabe Cora esteja mesmo certa. Após chorar a demolição das frágeis paredes de nossos sobrados interiores, talvez seja possível erguer no lugar um castelo de aprendizados que atribua algum sentido ao que vivemos. Há como superar de forma sábia o absurdo existencial  e suscitar versos em meio ao cotidiano da dor? Cora diz que sim. 

      Está posta a difícil e diária escolha de cultivar um canteiro de flores que seja mais encantador que o jardim das acomodadas lamúrias. Vale a pena tentar, mesmo que nosso plantio seja de flores “amarelas e medrosas” (como diria Drummond) de tanto medo de ser feliz. 



A casa
Rubem Braga


Outro dia eu estava folheando uma revista de arquitetura. Como são bonitas essas casas modernas; o risco é ousado às vezes lindo, as salas são claras, parecem jardins com teto, o arquiteto faz escultura em cimento armado e a gente vive dentro da escultura e da paisagem.
Um amigo meu quis reformar seu apartamento e chamou um arquiteto novo.
O rapaz disse: "vamos tirar essa parede e também aquela; você ficará com uma sala ampla e cheia de luz. Esta porta podemos arrancar; para que porta aqui? Esta outra parede vamos substituir por vidro; a casa ficará mais clara e mais alegre." E meu amigo tinha um ar feliz.
Eu estava bebendo a um canto, e fiquei em silêncio. Pensei nas casinhas que vira na revista e na reforma que meu amigo ia fazer em seu velho apartamento. E cheguei à conclusão de que estou velho mesmo. 
Porque a casa que eu não tenho, eu a quero cercada de muros altos, e quero as paredes bem grossas e quero muitas paredes, e dentro da casa muitas portas com trincos e trancas; e um quarto bem escuro para esconder meus segredos e outro para esconder minha solidão. 
Pode haver uma janela alta de onde eu veja o céu e o mar, mas deve haver um canto bem sossegado onde eu possa ficar sozinho, quieto, pensando minhas coisas, um canto sossegado onde um dia eu possa morrer. 
A mocidade pode viver nessas alegres barracadas de cimento, nós precisamos de sólidas fortalezas; a casa deve ser antes de tudo o asilo inviolável do cidadão triste; onde ele possa bradar, sem medo nem vergonha, o nome de sua amada: Joana, JOANA! - certo de que ninguém ouvirá; casa é o lugar de andar nu de corpo e de alma, e sítio para falar sozinho. 
Onde eu, que não sei desenhar, possa levar dias tentando traçar na parede o perfil da minha amada, sem que ninguém veja e sorria; onde eu, que não sei fazer versos, possa improvisar canções em alta voz para o meu amor; onde eu, que não tenho crença, possa rezar a divindades ocultas, que são apenas minhas.
Casa deve ser a preparação para o segredo maior do túmulo.



Das Pedras
Cora Coralina


Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.

Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.

Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.

Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.