segunda-feira, 12 de março de 2012

E-mail

     Sabe que eu nem me reconheço mais. Depois de algum tempo e poucas horas de Blues aprendi a amadurecer para fora. Dei autonomia para a discordância e abandonei os títulos, as nomenclaturas. Nessa altura da vida nenhuma vertente literária é capaz de salvar o poema do abismo nem consolá-lo da desilusão amorosa. Preferi estabelecer um novo eu e decidi aperfeiçoar minha crítica de mundo. Prestei atenção na experiência de que é conversar. 
     Deixei a vida passar, critiquei e superei dando um passo além. Talvez outro dia volte dois passos atrás e pense melhor, mas penso... Prefiro assim: não alugar molduras, não fugir das angústias, não esconder a bagunça da casa nem tampouco as indecisões do futuro. 
     Reconheci minhas inseguranças e nem por isso me diminuí. Vi a caixa de e-mail vazia, escutei a chuva suave pela janela, preparei a mesa do jantar para ninguém e nem me incomodei como antes. Fui mais gente que poeta. 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Prece por um amigo

 Meu Deus, 

Senhor dos destinos insondáveis dos homens,

confesso humildemente minha incapacidade de compreender a terminalidade da vida.
É tão difícil ter a valentia necessária para entender os ventos impetuosos da morte e enxergá-la metaforicamente como o sábio autor a descreveu: a curva que nos espera ao final da estrada...
Só peço que não permitais que aceitemos com naturalidade a partida prematura de nossos jovens. Que nunca nos falte a inquietação, o incômodo desassossego, a reflexão dos porquês. 
Ajudai-me a amadurecer a cada dia com as lições que a vida me proporcionar.
Que eu me transforme a partir dos acontecimentos e que estes não sejam em vão.
Que a medicina me ensine a calar quando me faltarem palavras e a amar com mais ternura porque nada pode ser tão urgente quanto o amor.
Que a belíssima inspiração do poeta gaúcho se cumpra entre nós...
  
“A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim..."

Mário Quintana, Poesia Completa.


Que os anjos do céu digam “amém” à doce rima de seus versos e os homens de boa vontade vivam motivados pelo objetivo de concretizá-la.

[Em homenagem ao querido Fabrício que faleceu ontem na Enfermaria de Moléstias Infecciosas do HC-UFU, às 10h02min numa manhã ensolarada como poucas. Infelizmente, os bons ainda continuam a morrer muito jovens]

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Inconcordantes

No princípio era só o verbo
latente em estado de silêncio.
Depois veio o sujeito
e com ele todos os erros de concordância.

Você chegou tirando histórias fantásticas
de dentro da sua mochila cheia de estilo,
como um narrador habilidoso de lendas encantadas.
Seu all star azul parecia o par perfeito para o meu preto de cano alto.
No fim, adoçou-me a boca enquanto nos divertíamos
tentando conjugar nossas agendas.
Depois, você saiu, num dia nublado, sem maiores explicações.
E me fez descobrir a tristeza,
essa vontade estranha de algo que ainda não inventaram.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Quase ao meu lado

Um sorriso de anatomia assim distante
fez a sombra dessa saudade de aspecto constante.
Se quiseres acender o sol da minha janela, 
prometo amanhecer qual vistoso girassol.
No entanto, preferistes me deixar sem viço.
Murchei de futuro.

Relembro o endereço, a falta de começo,
a  ausência do recado apaixonado na geladeira dos segredos.
Meu mundo de novo nublado,  
a espera do teu abraço com calor de pijama acordado.

Mais um eterno final de semana sem senso de humor...
Clichê por clichê, o que vale mesmo é o que eu declaro:
 Fica!
Só mais um pouco ao meu lado.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Gerundismo- Ano 2012

Jurando reparar mais na amplidão das janelas abertas.
Prometendo nunca mais dormir sem ter aproveitado suficientemente o dia.
Apostando cumprir sem culpa o mais irremediável dos desejos.
Sonhando em ter poucos, mas raros amigos.
Deletando os fantasmas que assombram os arredores da casa.
Reverenciando meus autores prediletos pela presença nas horas de tédio e medo.
Exigindo boa companhia para ouvir meus blues favoritos até o cair da tarde.
Encontrando nas derrotas os verdadeiros motivos para lutar.
Debochando de cada “não” sem uma razão bem convincente.
Tentando conciliar a agenda do ser com o fazer.
Transgredindo as roupas apertadas e as cobranças infundadas.
Projetando menos metas e arriscando mais no imprevisível.
Reconhecendo que sou tímida demais para declarar o amor que a poesia sublima.
Exigindo que o Cupido acerte a mira de uma vez por todas.
Rezando para que a medicina não me enlouqueça nos próximos dias.
Superando o receio de ver os armários abertos e a curiosidade pela geladeira dos amigos.
Prometendo arrumar religiosamente a cama, abrir as cortinas mais cedo e a não trocar o almoço por um mísero sanduíche.
Descobrindo que sou cômica demais para viver paixões avassaladoras.
Recusando a pagar mais do que as coisas valem.
Despachando os aborrecimentos para um lugar bem distante.
Fazendo as pazes com meu auto-retrato sem aquele desespero sem sentido.
Esvaziando a bolsa das inutilidades de sempre.
Declarando-me absurdamente apressada para ser feliz.


Leia também o Gerundismo que inaugurou 2011 em: 
http://portaodosfundos.blogspot.com/2010/12/gerundismo.html 

Invente sua lista de boas intenções, caro(a) leitor(a). Abuse dos verbos, dos tropeços linguísticos e reinvente-se no próximo ano.