quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Devaneios insones - Responda-me, amor!

     Ele era magro, tinha uma barba por fazer, um cabelo com ar ocasional de despenteado pelo vento, o queixo saliente, nome de rei medieval e gostava de couve-flor. Foi assim, enquanto tomava café da manhã, que Luísa começou ternamente descrevendo para sua mãe a imprevisibilidade do amor. Será que ele também é obcecado por bulas de remédio? Tem medo de nadar? Será que deixa as plantinhas morrerem por falta de cuidados e é obrigado a trabalhar nos finais de semana? Será que é realizado na profissão tanto quanto ela? Por acaso chora tarde da noite com medo de fracassar? Depois de um bombardeio de interrogações, era de se imaginar como o café de Luísa estava morno. Compensava saber, no entanto, que seu coração estava aquecido em fogo brando.  Ah! Será que ele também é viciado em café? Dorme tarde? Sonha acordado? Chora lendo poesia? Continuava se perguntando, depois de ganhar um beijo de despedida de sua mãe, agora já sozinha na cozinha...

     Luísa o imaginava como um céu raso que, embora parecesse perto, era inalcançável pelo rio de timidez entre ambos. Desenhava-lhe como um algodão doce que, embora irresistível no sabor, é artigo de luxo de tão difícil de achar. Bom mesmo seria se ele fosse seu vizinho para espioná-lo com a cara amassada de quem acabou de acordar através da sacada do seu prédio. Ah, será que ele também acorda de mau humor? Recupera fácil a alegria com um simples cartoon? Ri do vaga-lume ter uma lâmpada no bumbum e não precisar pagar conta de energia? Será que ele também sofre com as contas vencendo no final do mês ou nasceu em berço de ouro? Será que ele fica com as bochechas vermelhas quando é elogiado? Será que fica triste aos domingos? Faz análise para não surtar? Curte móveis antigos? Também desafina atravessando a melodia? Por acaso escuta um disco mil vezes até enjoar?

     Que dia ele viria avarandar o tédio de Luísa, desamedrontar seus medos e juntar suas angústias com as angústias dela?

     Consolava Luísa saber que a demora faz a espera ser melhor quando a lembrança é boa como um algodão doce derretendo na boca devagar...

sábado, 16 de novembro de 2013

Conselho bom e barato

O vencedor é de todos o mais chato.
Sobra tanto que nem falta faz.
Palavras bem ditas não ensinam o ditado ser sábio,
porque a mente só funciona quando fica aberta
como um paraquedas contrariando a gravidade.
O sorriso que se achou tão pouco pode ser
o beijo ganhado de longe pra enfeitar o seu domingo.
Tímidos são assim: misteriosamente contidos
para não revelar o continente num segundo.
Aproveite-se e subverta a moda.
Saia de si e agarra-se no vestiário com paixão.
Em tempos de crimes inafiançáveis,
beijo consentido sentencia cem anos de perdão.
Se você simplifica, amor... Simples, fica!
Deixe para trás o que não te leva para frente
e escute o meu conselho, atento e devagar.
O bobo da corte também ensina com maestria.
Sabe da felicidade que esquece o motivo? (o porquê além da alegria)
Já ouviu falar?

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Acordo financeiro

Se aconchegue na beira das minhas promessas.
Com a vida não se faz empréstimo de longo prazo.
Tudo é investimento de risco alto!
Não paga carnê, não prevê tanto de esforço nem lucro garantido.
O desejo não assina cheque pré-datado.
Aliás, tem até nome sujo no SPC.

Siga redundante em frente sem contar com ré
porque no mesmo dia que se amanhece rico,
se anoitece pobre de marré.
Não vasculhe minhas gavetas:
você pode se encontrar.
Mantenha a calma!
Sem perder a pressa...

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Carta para a aniversariante do dia

Querida Patrícia,
     Enfim chegaram seus vinte e oito anos... Inevitável o clima de crise existencial, mas perceba que as aflições são circunstanciais e podem ser abrandadas quando se compreende que há, pelo menos, duas maneiras sábias de conceber a passagem do tempo. Uma filosófica e outra prática. Como uma brisa leve que acaricia teus cabelos ou como uma rajada impetuosa de vento que destelha a vida. O importante é passar por cada experiência proporcionada com a transitoriedade que cada uma merece. Não se iluda nem se aprisione num concretismo pessimista.
     Que a maturidade do presente não oculte teu riso irônico quando apontares teus próprios defeitos nem te faça esquecer que o melhor aconchego é o colo que a gente mesmo se oferece. É seguramente melhor ficar com rosto vermelho por dois minutos do que com riso amarelo para o resto da vida. Saiba também que teus consideráveis cabelos brancos não escondem a menina amedrontada que ainda teima em viver em você. Aquela mesma criança de pijama florido que dormia com luz acesa pelo medo do escuro é a mulher supostamente segura e independente de hoje que, de vez em quando, ainda chora pelos cantos dramaticamente agarrada a um disco do Chico ou a um verso de Leminski.
     Que você opte sempre pelo certo, mesmo que dê mais trabalho. Que a medicina que você exerce seja cada dia mais tecnicamente primorosa e humanamente flexível. Peço também que nunca te falte disposição para fazer, sem culpa, um brigadeiro de panela após um dia exaustivo de trabalho. Reverencie a vida como você se comprometeu a fazer desde o princípio de tudo. Entenda, de uma vez por todas, que as coisas só darão certo quando você conseguir equilibrar o lado “Clarice Lispector” com o lado “Drummond”. Poucos conseguem entender que a vida é um grande karaokê de óperas. Leva tempo para apurar os ouvidos. Então, tenha calma...
     Durma mais cedo, amplie sua coleção de pijamas, continue escrevendo cartas de amor... E apresente Cartola aos teus filhos. Eles merecem ouvi-lo! Você sabe que crescer não significa só abandonar o conforto do “all star” e começar a usar salto alto, mas garantir que a poesia viva mais em teu peito que nas tuas gavetas.

     A vida não oferece alternativas: ou você segue, ou você segue...
    Para tudo isso só me resta desejar-te força e coragem com um abraço profundamente acolhedor, afinal nós merecemos isso.
     Da sua amiga Patrícia, de algum lugar do futuro. 


Essa trilha sonora tem como único objetivo te recordar do conselho que você adotou como lema de vida: " Minha pequena Amélie, seus ossos não são feitos de vidro e você pode aguentar os golpes da vida”.

“A vida começa quando a gente compreende que ela não dura muito”. Millôr Fernandes

domingo, 16 de junho de 2013

Devaneios insones- Protesto

    incompletude é o traço da personalidade de Luísa que mais a aproxima dos poetas que ela lê. Entre tantas teorias e conceitos complexos a que é obrigada a dominar, são os poemas que produzem descanso ao seu corpo exausto de tantas exigências. É preciso concluir, apesar de ser difícil a constatação, que se tornar adulto pode representar transformar-se numa pessoa sem graça e previsível que não pensa duas vezes ao aposentar os patins em troca de uma agenda farta de compromissos sérios ou viver assombrada pelo hábito de acordar, sem motivo, no meio da noite para arrepender-se do que não fez pelo excesso de pensar. Poderia ser comparada facilmente a uma daquelas protagonistas clariceanas conhecidas por terem na alma o peso do mundo ou por chorarem crises existenciais feitas de palavras eloquentes que morrem censuradas antes de serem ditas.     
     O quarto bagunçado de Luísa é uma boa representação do seu mundo interior. Quem sabe também do frio que a obrigava enrolar-se num edredom feito um rocambole de tristeza. Para que contrariar o relógio se a vida insistia em convencê-la de que não passava de um imperdoável despertador sem a função “soneca”?  
     Tinha convicção de que ou enfrentava os próprios medos com pontualidade britânica ou acumulava insuportáveis repreensões do chefe a sua coleção de troféus pelo primeiro lugar no campeonato dos piores fracassos da história. Mas, ainda assim, podia sentir orgulho por, apesar de sua nítida preferência ao tragicômico e ao mais patético, ter magoado poucas pessoas nesse mundo. Talvez pudesse contabilizar umas duas ou três maldades das quais ela não conseguia se perdoar. 
     Convenhamos que, provavelmente, isso signifique pouco perto de um mundo em que basta ter algum senso crítico para perder o ânimo de fazer poesia sincera ou declarar-se com originalidade para algum sujeito com atributos alternativos àquelas belezas geometricamente simétricas e excessivamente fotográficas. 
     O próximo ato revolucionário de Luísa será pichar, escondido dos seus pais, o teto do seu quarto com letras garrafais: 

"Por um  mundo que dê vez aos que morrem de medo antes mesmo de começar. Voz nem precisa porque somos tímidos demais para isso!"