Num mundo marcado pela diversidade interpõe-se a divergência entre pontos de vista. Serão sempre pontos de vista a partir de um PONTO - seja o da porta da frente, seja o da porta dos fundos. É nesse espaço de escolhas que a arte se irrompe e transfigura-se em seu poder de recriar a vida, transformar as mentes, afetar as sensibilidades, encurtar as distâncias e encontrar os olhares. Se desejar entrar, a porta está aberta. Achegue-se mais e seja bem-vindo(a)!
Luísa já desistiu de entender o tempo que o passar do tempo não resolve,
a contrapartida do tédio e o resquício amargo que fica na boca toda vez que a
felicidade é mais doce que um sorvete de creme. Talvez a vida seja mesmo mais
cinematográfica do que os poetas imaginaram. Depois de pouco mais de 1 hora e
20 minutos, a vida volta insuportavelmente monotemática e continuará sendo
necessário tirar a roupa molhada antes que o resfriado chegue bem como jogar a
latinha de refrigerante e o saquinho de pipoca no lixo enquanto se acostuma com
a claridade do dia do lado de fora da sala de cinema. Para ela, quem se
esparrama muito incorre no risco de não se encontrar mais depois e, às vezes,
seguir em frente, apesar de muito óbvio, significa nunca mais achar o caminho
de volta, mesmo que o lugar atual nem seja assim tão bom a ponto de compensar a
estadia.
Nesse ponto, Luísa achava que a metáfora do sofá se aplica com
maestria para a vida. É lugar pequeno, as almofadas são indiferentes e mal
cabem as próprias costas. Pelo menos de lá dá para contar os ladrilhos do chão
como alguém que prefere pular amarelinha a desfilar numa passarela. Preferia a
desculpa para deixar passar a hora de comprar o pão. E se o café da manhã já
começava com atraso, para que esperar motivos para colocar a mesa do jantar? De
que adianta um vestido lindo se a vida que se vive dentro dele não merece o
decote sensual que ele tem?
Luísa acreditava mais na existência do Bêbado
do que da Equilibrista, mais que a própria Elis Regina na interpretação mais
visceral dessa conhecida canção. Sentia uma grande identificação com todos
aqueles que já frequentaram a rua dos perdedores, aqueles que quando não
ficavam sozinhos no recreio estavam tropeçando em alguma escada do pátio,
daqueles que se afogavam na piscina das próprias mágoas ou daqueles mais amigos
da cantina do que da quadra de esportes. Só eles seriam capazes de entender sua
falta de motivos para os brindes de hoje. Seu cartão da biblioteca tinha mais
livros emprestados que lidos, mais eventos não comparecidos e mais sobrancelhas
arqueadas que risos fartos. As lágrimas dos tempos do colégio foram
cuidadosamente colecionadas em caixinhas coloridas para não secarem. Uma para
cada dia da semana. Com carinho, catalogava também as ideias incompreendidas e
nunca premiadas das feiras de ciência, a falta de ar com apenas duas voltas na
quadra de vôlei, o prêmio de último lugar nas olimpíadas escolares, a eterna
confusão entre direito e esquerdo e a atração do próprio pé por um buraco ou
por uma casca de banana qualquer.
A vida escolar também tem seus incompreendidos encantos. A ela,
Luísa devia os joelhos esfolados, o vermelho vivo do boletim e o troféu de
primeira substituta da última reserva do segundo time do esporte menos
praticado pelos colegas do colégio.
Comemoro
hoje meu vigésimo sétimo aniversário. Ou seria meu quadragésimo? Tudo depende
de quanto tempo deixei de viver nos últimos anos. O que posso afirmar
sinceramente é que a minha idade nunca combinou comigo. Acho até que já nasci com
certidão de velhice e que minha alma veio lá dos anos 70 (Sabe, uma espécie de "Velha e Louca" como diz uma doce canção por
aí?!).
Escolhi a roupa, tomei banho, sequei o cabelo e retoquei as
olheiras. Acho até que essas nem Deus consegue mais dar jeito. Separei também
para usar aquele colar com conchas que o mar da saudade um dia me trouxe.
Começo o dia respondendo com voz firme ao chamado da vida: “Presente. Cá estou!”
Encaro-me no espelho do banheiro enquanto escovo os dentes e
percebo que já amanheci tarde. Tento descobrir no que me tornei após tantos
percursos acidentais, tantos deslizes, tantos esquecimentos, tantos afetos,
tantos amores. Alma encharcada, repleta de chão, desistência completa de
qualquer ideia conformada de me adiar mais uma vez. A vida é assim mesmo tão
urgente ou sou eu que ando perdida em suas reticentes vírgulas? Suspiro fundo,
pensativa e calada, ao invés de responder.
Quero um dia de interjeição. Dizer um sonoro e convicto “alto lá”
ao diploma do fracasso e ao chute no traseiro. Quero a arquitetura inventiva de
dias que ainda não aconteceram, mas gelam as minhas mãos, trêmulas como de uma
criança, de tanta emoção incontida.
Sopro as velinhas do bolo imaginário que eu mesma preparei usando
como ingredientes as insatisfações que acumulei ao longo do meu caminho. Cara
feia agora é doce de leite e o fracasso, a cerejinha de enfeite final. A
receita da vida, às vezes, requer um recheio de dúvidas inconvenientes e um
sabor agridoce de cinismo. Antes de sair de casa, tomei café sentada ali,
sozinha, na minha gelada cozinha. Depois caí na gargalhada pensando na meia
dúzia de planos que eu havia projetado para concluir antes dos 30 anos. A vida
me ensinou a duras penas a desengavetar a poesia, mesmo que ela continue sendo
incorrigivelmente tímida e triste. Quem mandou Drummond aparecer na minha vida
aos 13 anos.
Descobri, nessa altura da vida, que ironizar-se é o melhor
presente que alguém pode dar a si mesmo. Decidi, finalmente, acatar o
conselho insistente e sábio daquele anjo torto que vive na sombra mansa desse
vasto mundo a me dizer:
-Vai, Patrícia, ser gauche na vida!
E agora, com licença, que eu vou ali errar um pouco mais.
P.S.:
Descobrir que você nasceu no mesmo dia em que foi instituído o horário de
verão no Brasil pode dizer muito da sua própria personalidade. Talvez isso
justifique, em grande parte, a minha inadequação com as horas e a constante
predileção por esse jeito de fim de tarde que a vida tem. Para encerrar, a
trilha sonora escolhida para hoje...
Entregue-se- Tiê
Velha e Louca- Mallu Magalhães
Eu quero ser feliz agora- Oswaldo Montenegro
Deus me proteja- Chico César
O vencedor- Los Hermanos
“Aniversário
é uma festa para te lembrar do que resta”
num
lugar remoto conhecido como “O Reino dos Desiludidos”,
Deus
disse: “Faça-se o coração!”.
Em
seguida, temendo os desatinos de sua primeira criação,
(seria
também sua predileta?)
proferiu
em tom assertivo: “Faça-se o cérebro!”
Daí,
o cérebro olhou para o coração retrospectivamente e teve muita pena. (A
última série de casos publicada recentemente aponta que a referida espécie poderá
ter um destino final ainda mais trágico que a extinção dos dinossauros. No entanto, ainda
não há consenso na literatura.)
Luísa, às vezes,
não concorda nem consigo mesma. É pessimista demais para acreditar em coincidências
banais. A chegada da primavera é mais complexa do que simplesmente circular uma
data no calendário. As flores do seu jardim, desobedecendo às tradições
climáticas, teimavam manterem-se tímidas até quando o resto do mundo
resolvia desabrochar. De tudo que era, era bem menos que um terço. Será
que a vida já não era mais tão bonita assim quanto cantou Gonzaguinha ou
estaria ela embebida de tal forma num existencialismo descrente?
Precisava aprofundar-se na inversão do “cogito” cartesiano e andar
de mãos dadas com Lacan aos menos nas tardes de domingo. “Eu sou onde não
penso”, repetia como se fosse uma devotada profissão de fé em si mesma.
Precisava dizer, ainda que não conseguisse atingir toda a não-racionalidade
daquela expressão, mas seu alter ego intuía. Mesmo que tropeçasse dali a pouco
mais de dois passos (isso certamente iria acontecer), valorizava aquele breve e
inexplicável instante de ternura e encanto.
Desacostumar-se é uma vitória íntima e sigilosa, como numa festa
ruim que dependemos de carona para ir embora ou aquela sensação perene na vida
de quem saiu, mas acabou esquecendo a porta destrancada outra vez. O que
adianta tanto esforço se no final das contas quem menos chora é quem mais se
oprime e quem menos busca é a pessoa que mais se perde?
O jeito talvez seja mesmo achar um poema pra deitar quietinha
entre um verso e outro até esquecer-se de seus medos. Lá pelo menos não
haveria necessidade de justificar os invernos tão prolongados. Os poetas sim,
eles entendem desses não-lugares. Da palavra não dita, do suspiro por trás de
uma confissão não declarada, dos lírios que enfeitam a noite com suaves
perfumes e dos cactos que também encantam os olhares pelas contradições da
tristeza. Luísa, às vezes, também pensava que a vida era um cumprimento de
mão frouxo. Mantinha-se sempre ali por perto, mas não a protegia. No fundo, não
existe generosidade partilhada. O dia é uma prestação única e à vista. Ninguém
pode pedir desconto para a vida. Ou você faz do calor uma água de coco ou passa
a vida inteira reclamando refém do ar-condicionado. Triste é concluir que só
tem lucidez nessa vida quem não tem coisa melhor para ter.