quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Bem-me-quer

Escrevi seu primeiro nome no verso da última pétala da flor do meu querer.
Depois, espremi as letrinhas pra caber um “bem-me-quer” num canto à esquerda. 
Por último, prometi não quebrar a tradição antiga quando o desejo não for uma metáfora qualquer.
Muitos disseram que eu provavelmente esteja dormindo em pé.
Outros, mais amigos, me acharam cansada e gentilmente me aconselharam umas férias.
Tive de explicar educadamente o quão estavam estatisticamente enganados.
É que nunca souberam encontrar entre os inutensílios perdidos:
o castelo de areia erguido na sala de TV,
o beijo que cura a dor nas costas e a enxaqueca do mês,
o poema que dorme no rodapé dos livros de medicina,
o domingo de folga que atravessa as quintas de plantão,
o abraço que vale por uma semana a mais de férias,
a viagem que junta o continente dos sentimentos,
a prescrição que recomenda colo e alivia medos,
o olhar que é comum, mas enxerga em 3D,
o amor que não tem CRM, mas socorre a vida dos perigos dela mesma.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Restos mortais

Quanta gente morre todo dia soterrada por uma avalanche de pragmatismo, asfixiada num vazio sem encaixe, num silêncio infértil, numa dor sem transcendência.
Em tantas delas a chuva caí e escorre impermeável, o vento bate sem envergar ou refrescar.
Vivem como se o mundo fosse trincado por dentro de cima para baixo.
Não dão um passo sequer com o cadarço solto, nem um mísero soluço quando sentem medo.
Morrem com a coluna arqueada, as coronárias entupidas ou por morte natural, sem compreender, no entanto, que a vida é um dom que se concede aos que subtraem da felicidade o detalhe que a maioria não repara enquanto vive.

domingo, 17 de julho de 2016

Centro da cidade

Tenho em mim a saudade mais forte do perímetro urbano.
Temo não caber nesse frágil coração um sorriso largo,
que combine com a amplitude do teu peito destemido nas ladeiras do mundo.
Continuo temendo os passos em falso, o revolto mar, a sutura sem anestesia,
a instabilidade do solo, a economia das algibeiras, a insônia sem companhia,
os estilhaços dos vitrais, as frases sem concordância, as almas sem discordância.
Mas um dia ainda hei de agradecer por cada rima tímida escondida nas gavetas,
pela saliva cicatrizante dos teus olhos, o unguento com cheiro hortelã de tua pele,
o silêncio do teu caos, o clarão do teu breu, as luzes enluaradas do teu céu.
Por acenderes a lareira dos sonhos e desviares a rota geométrica das certezas
até eu encontrar novo rumo, no centro de mim, desaprumo.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Um carnaval que dure o ano inteiro

       Escuta só, fevereiro mal começou e o ano já está esquisito. No mais, a luz entra pelas rachaduras de sempre e, entre uma falha e outra, sempre se espera uma iluminação qualquer. As cores do verão ainda insistem em atravessar as vidraças barrocas da melancolia. Quanta ilusão, pois já de antemão se sabe que no final da história nem Pierrot nem Colombina alcançarão redenção. Tarde demais porque a essa hora tudo é carnaval. Metade dançando, folia, suor e cerveja. A outra metade dormindo, limpando a pólvora das armas, morrendo.
       Uma mãe acaba de medicar seu bebê por causa de uma febre sem causa. João dá um copo de água gelada para matar a sede do amigo na construção do prédio aqui do lado. Enquanto uma árvore frondosa cai na Amazônia, uma criança nasce a plenos pulmões. Enquanto Clara completa 36 horas seguidas de plantão, Mário namora há 10 anos através de uma webcam. E você? Tem sede de quê? Qual o protetor da sua pele? Qual seu samba favorito? Qual das suas cicatrizes te ocupa mais tempo? Quanto de entrega há por trás dos seus beijos? Você muda o compasso da música ou contenta-se com um “dois pra lá, dois pra cá”?
       O nosso bloco sai depois das duas da tarde. Faça chuva ou faça sol. Partiremos da cidade baixa, atrás da antena de rádio no subúrbio da tristeza, na esquina da rua dos desiludidos com a avenida dos insurgentes. Vem de cara limpa e de pijama mesmo, mas vem. Passaremos sem credenciais, escondidos da polícia, pelo circuito subterrâneo do amor. Convite preferencial para os foliões fora de forma, os desajeitados que atravessam o samba, os atrasados para o desfile, os reprovados de recuperação na vida. É o convite mais sério que eu já fiz até hoje. Escuta com o coração: posso te esperar para um carnaval que dure o ano inteiro?

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Três ponto zero

Aniversários costumam exacerbar movimentos pessoais de interiorização. É como se a proximidade da data que representa simbolicamente o encerramento de um ciclo de vida para o início de outro nos obrigasse a uma caminhada por pedregulhos, a um mergulho em águas subterrâneas, a travessias por pontes móveis na direção de destinos desejados apesar de incertos.

Acordo de repente com 30. E por mais que possam parecer pesadas três décadas, não apazíguo minhas inquietações. Continuo a mesma menina que tinha medo de perder-se ao sair de casa, que chorou copiosamente na primeira vez que viu um passarinho caído no chão com a asinha quebrada sendo devorado por formigas impiedosas, que se interessava pelo universo paralelo dos tímidos mais impopulares do recreio ou que brincava de dar chás curativos às bonecas adoentadas.

De forma que tudo até aqui tem muito da companhia de Clarice nas intermináveis viagens de ônibus, do consolo musical de Chico naquelas derrotas duras da vida, das vezes que imaginei Vinícius lendo poemas insistentemente esperançosos me arrancando dos clichês pessimistas, do samba de Noel que me tirou tantas vezes da cama, do sax de Chet Baker que despistou a insônia, dos graves de Dylan que me fizeram enfrentar pias de louça suja ou os medos mais primários, do toddynho que me salvaguardou das hipoglicemias matinais, do vinho que me protegeu do excesso medíocre de lucidez, dos guardanapos de papel que acolheram as poesias repentinas, dos lixos que abrigaram as provas que não me serviram de nada, dos não-frequentadores dos primeiros lugares que me fizeram acreditar que as pessoas mais interessantes costumavam ficar de fora das festas apreciando as estrelas e da gramática que me ensinou que basta um ponto de exclamação quando a emoção é sincera.

Posso corajosamente estender simbolicamente a vida no varal e sentenciar que tudo até hoje fez muito sentido, até quando parecia não fazer.