domingo, 13 de julho de 2014

Campeonato pelo último lugar no pódio dos piores do mundo

     É irremediável brigar contra o tédio. Não adianta marcar audiência de conciliação, ensaiar despedidas marcantes, enumerar argumentos convincentes e qualidades pessoais, bancar discursos articulados, fingir corpo esguio e autocontrole. Todas as pessoas, por mais decididas e bem resolvidas que aparentem ser, desmontam a pose quando se encaram verdadeiramente diante do espelho do banheiro.
     É preciso reconhecer que, por mais libertador que seja rolar escadaria abaixo, os joelhos esfolados não escondem a continência do viver. Reconfortante é concluir que a coleção de cicatrizes que carregamos no próprio corpo têm muito mais da nossa história de vida que qualquer luxuoso álbum de fotos.
     Toda a minha admiração aos esfolados, aos perdedores, aos que encerram o mês no vermelho, aos desiludidos, aos últimos da fila, aos perdidos na confusão da cidade grande dos sentimentos, aos que ficaram de fora da festa de encerramento fazendo companhia para a lua. A gente joga no mesmo time! E se falarem por aí que a gente não vai muito longe dentro do campeonato da vida concordaremos silenciosamente com um sorriso tímido daqueles que exteriorizam nos lábios uma espécie de clarão interior por sabermos muito bem que nem sempre no pódio estão as melhores histórias.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Em comemoração ao dia do trabalho

A gente devia escrever mais poemas do que bilhetes de desculpas.
A gente devia assumir os erros com humildade e dividir os acertos com simplicidade.
A gente devia voltar para casa antes de o dia anoitecer.
A gente devia construir mais pontes do que cercas existenciais. 
A gente devia ser o nosso próprio patrão.
A gente devia se preocupar menos com a folha de pagamento do vizinho.
A gente devia instituir o happy hour como parte do expediente.
A gente devia acordar com a alma em prontidão para contrabalancear a cara amassada.
A gente devia ocupar o latifúndio do coração das pessoas e arar a terra com respeito.
A gente devia descansar a ferramenta do corpo antes dela adoecer.

domingo, 6 de abril de 2014

Abaixe o tom

O amor costuma ser grátis.
Jamais barato.
Todo volume máximo cai invariavelmente no esquecimento.
Rituais para lembrar são sussurros
somados a duas voltas completas na fechadura.
Mulher nenhuma coloca um disco de Chico à toa.
Pretensiosas todas, somos!
A mesma que inventa um sorvete de açaí pra te agradar,
envenena secretamente teu café na manhã seguinte.
Coloca teu coração ajoelhado no milho no fundo da sala.
Segundos depois, volta atrás.
Constrangida, suspende o algoz do castigo atroz
e oferece colo afagando teus cabelos com olhos redimidos de lágrimas.
Quando alguém fizer silêncio,
por favor,
ouça! 

sábado, 29 de março de 2014

Matéria-prima

Somos o contraponto da cidade convencional.
Somos o desejo que não se consome no fogo da lareira.
Somos o que os outros chamam de sorte.
Somos a contravenção de um bom ladrão.
Somos o que nos dá coragem mesmo tremendo de medo.
Somos a noite debruçando suas luzes sobre a calçada.
Somos os botões de fuga que acionamos diariamente.
Somos a criança de colo admirando a barba branca do pai.
Somos a sapatilha de pano nos pés da plebeia de alma nobre.
Somos os porres criativos dos amantes não correspondidos.
Somos o gordinho de óculos deslocado na festa do colégio.
Somos o diabético que namora a geladeira.
Somos o nerd perdendo a grande chance da vida por uma crise de asma.
Somos a poesia do branco-encardido e do amarelo-verdade.
Somos o que sussurramos inconscientes enquanto dormimos.
Somos as confissões que cravamos no tronco da árvore da vida.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Quem sabe

Ele não sabe, mas açaí é o alimento mais poético que existe.
Ele não sabe, mas os versos são desejos repentinos das madrugadas.
Ele não sabe, mas ironia e Nescau demais fazem mal igualmente.
Ele não sabe, mas a cidade continua fria mesmo aos 40 graus.
Ele não sabe, mas os nossos filhos vão ouvir Dylan.
Ele não sabe, mas a minha terapeuta me aconselhou um cachorro.
Ele não sabe, mas a bebida só é boa quando a companhia ajuda.
Ele não sabe, mas o céu tem as estrelas que se consegue colocar.
Ele não sabe, mas ontem foi sábado como se não tivesse sido.
Ele não sabe, mas a pior anemia é a inanição do afeto.
Ele sabe muito bem que o amor não tem encaixe perfeito, mas a poesia sim.