sábado, 3 de dezembro de 2016

Restos mortais

Quanta gente morre todo dia soterrada por uma avalanche de pragmatismo, asfixiada num vazio sem encaixe, num silêncio infértil, numa dor sem transcendência.
Em tantas delas a chuva caí e escorre impermeável, o vento bate sem envergar ou refrescar.
Vivem como se o mundo fosse trincado por dentro de cima para baixo.
Não dão um passo sequer com o cadarço solto, nem um mísero soluço quando sentem medo.
Morrem com a coluna arqueada, as coronárias entupidas ou por morte natural, sem compreender, no entanto, que a vida é um dom que se concede aos que subtraem da felicidade o detalhe que a maioria não repara enquanto vive.

domingo, 17 de julho de 2016

Centro da cidade

Tenho em mim a saudade mais forte do perímetro urbano.
Temo não caber nesse frágil coração um sorriso largo,
que combine com a amplitude do teu peito destemido nas ladeiras do mundo.
Continuo temendo os passos em falso, o revolto mar, a sutura sem anestesia,
a instabilidade do solo, a economia das algibeiras, a insônia sem companhia,
os estilhaços dos vitrais, as frases sem concordância, as almas sem discordância.
Mas um dia ainda hei de agradecer por cada rima tímida escondida nas gavetas,
pela saliva cicatrizante dos teus olhos, o unguento com cheiro hortelã de tua pele,
o silêncio do teu caos, o clarão do teu breu, as luzes enluaradas do teu céu.
Por acenderes a lareira dos sonhos e desviares a rota geométrica das certezas
até eu encontrar novo rumo, no centro de mim, desaprumo.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Um carnaval que dure o ano inteiro

       Escuta só, fevereiro mal começou e o ano já está esquisito. No mais, a luz entra pelas rachaduras de sempre e, entre uma falha e outra, sempre se espera uma iluminação qualquer. As cores do verão ainda insistem em atravessar as vidraças barrocas da melancolia. Quanta ilusão, pois já de antemão se sabe que no final da história nem Pierrot nem Colombina alcançarão redenção. Tarde demais porque a essa hora tudo é carnaval. Metade dançando, folia, suor e cerveja. A outra metade dormindo, limpando a pólvora das armas, morrendo.
       Uma mãe acaba de medicar seu bebê por causa de uma febre sem causa. João dá um copo de água gelada para matar a sede do amigo na construção do prédio aqui do lado. Enquanto uma árvore frondosa cai na Amazônia, uma criança nasce a plenos pulmões. Enquanto Clara completa 36 horas seguidas de plantão, Mário namora há 10 anos através de uma webcam. E você? Tem sede de quê? Qual o protetor da sua pele? Qual seu samba favorito? Qual das suas cicatrizes te ocupa mais tempo? Quanto de entrega há por trás dos seus beijos? Você muda o compasso da música ou contenta-se com um “dois pra lá, dois pra cá”?
       O nosso bloco sai depois das duas da tarde. Faça chuva ou faça sol. Partiremos da cidade baixa, atrás da antena de rádio no subúrbio da tristeza, na esquina da rua dos desiludidos com a avenida dos insurgentes. Vem de cara limpa e de pijama mesmo, mas vem. Passaremos sem credenciais, escondidos da polícia, pelo circuito subterrâneo do amor. Convite preferencial para os foliões fora de forma, os desajeitados que atravessam o samba, os atrasados para o desfile, os reprovados de recuperação na vida. É o convite mais sério que eu já fiz até hoje. Escuta com o coração: posso te esperar para um carnaval que dure o ano inteiro?