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segunda-feira, 2 de julho de 2012

Devaneios insones- A raiz quadrada de 19

     Era, provavelmente, uma equação insolúvel ou uma segunda-feira dando início a um inverno insuportável. Luísa parecia ter saído de um filme francês do final dos anos 90 ou de alguma canção romântica daquelas bandas alternativas do rock inglês dos anos 80. Para ela, no entanto, tudo não passava de um prenúncio de julho antecipando seus incômodos sentimentos.
     Naquela noite, se pudesse, a jovem daria um forte e emocionado abraço em Newton pela genialidade expressa na Lei da Inércia. Qualquer movimentação nessa altura da vida seria profundamente agressiva e contraditória. Já estava decretado o fracasso pessoal e nada que fizesse poderia mudar o inexorável destino daquele prolongado inverno. Fingiu anoitecer sentada na cama com os olhos semicerrados e olhou para o abajur queimado em cima do criado mudo e para a caixinha de música que há mais de um ano esperava conserto. As fotos no mural da sala também dispensavam qualquer explicação mais detalhada sobre a sua personalidade vazia. O resto do cenário se resumia num quarto bagunçado em uma noite de poucas estrelas e sem lua, iluminado apenas por uma luz longínqua vinda de um dos edifícios daquela cidade de sucessos empresariais e fracassos humanos. A única distração era pensar numa revolução em causa própria: destruir os ponteiros do relógio para remediar seus constantes atrasos.
     Para o café da manhã, Luísa preparou leite com café (sua especialidade culinária predileta) e bolacha de água e sal, aquela mesma com gosto de nada que já chega esfarelada só de ser olhada na prateleira do supermercado. De pijamas, ainda, sentou-se na frente do computador, após incontáveis meses sem uma inspiração sequer, e reiniciou, pela enésima vez sem uma inspiração sequer, a primeira página do romance que pretendia escrever desde a adolescência. Difícil era não matar o protagonista na primeira linha, fugir do desespero que sentia após concluir o terceiro diálogo do texto e de citar fatidicamente a “Metafísica do Amor / Metafísica da Morte” de Schopenhauer já no primeiro parágrafo. Mas, para que insistir tanto nos detalhes estéticos ou na procura de um discurso maduro, se tudo sempre acaba em folhetim popularesco com a sobriedade da rima alcoolizada comicamente na sarjeta de uma poesia tão pueril e insegura?
     A única conclusão a que Luísa conseguiu chegar era de que, se um dia escrevesse sobre o amor, o faria na forma de contos dramáticos e curtos para não cansar o leitor. Isso porque, quando se chora, as palavras cumprem a sina anárquica e autoritária de romper a arrogância do silêncio sem pedir licença aos ouvintes. Desistir é também uma forma de guardar o que nunca se teve. De resto, só faltava escrever que o amor não é um quadrado perfeito, tem gosto de café amargo e um jeito sem graça e bobo de rock do passado.

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