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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Perdendo tempo

     Nem sei explicar minha obsessão pelo tempo. Sentar ao lado de pessoas capazes de narrar as causas dos sulcos impressos no próprio rosto, a história que justifica as lágrimas tímidas que ninguém viu nem consolou, as memórias que o amor sussurra sem pressa em hora tarde, a razão da cicatriz saliente na pele. Quero viver da substância dos dias, do empenho diário, da inquietação que amadurece a hora presente. Engana-se a si mesmo quem não pensa no quanto de choro é preciso para sustentar o riso que abre uma noite de domingo.
     Conto os dias nos dedos como quem faz um ritual de passagem. Pinto o calendário com matizes do entardecer. Vejo as estações mudando de forma e os raios do sol desenhando no céu as verdades que eu ainda não aprendi a enfrentar. Mas já não temo mais as contradições.
     Volto sempre ao passado e resgato o som que, um dia, esteve na boca dos meus avós. Gosto dos móveis antigos, da beleza escondida atrás dos vitrais coloridos, do tecido emaranhado da rede que eu construí com as minhas perdas, da dúvida que existiu antes da conclusão ser declarada, do ensaio, dos preparativos, da bagunça nonsense do quarto mantendo certa leveza para os compromissos diários, da pausa na corrida para amarrar o cadarço do tênis.
     Só não corro o suficiente para fugir da tristeza que me cerca. Também nem tenho tamanha pretensão. Ao contrário, chamo-a para conversar, nos olhamos sem subterfúgios, discordamos e, algumas vezes, até agradeço pela inspiração que ela me trouxe antes de partir. De uns tempos para cá, aprendi também a guardar seus bilhetinhos numa caixinha de madeira na mesa de cabeceira ao lado da minha cama. Certos dias, pego de novo nas mãos aqueles rascunhos guardados e limpo a poeira delicadamente como quem possui uma relíquia de valor inestimável.
     Acho poética a melancolia. Ela possui contornos estéticos frágeis, serenos e delicados. Possui também um ar de inutilidade que me comove.
     Não tenho pressa. Busco o que tem gosto de espera, os poemas que demoram a nascer, o que antes fora promessa e desejo secretos. Quem sabe ainda chegue o dia em que eu tenha plena coragem de assumir em público cada fracasso a ponto de reconhecer que sou muito mais fruto deles que das conquistas que julgo ter.
     O fato é que eu continuo acreditando ser melhor economizar meses a fio antes da tão esperada compra. É sempre mais circunstancial a liquidação. Bom mesmo é namorar a vitrine.


[A autora pensando no post mais desocupado que já escreveu numa tarde de domingo] 

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