domingo, 13 de maio de 2012

Saudade

Minha mãe, minha doce menina,
pudera eu abraçar-te e consolar-te de teus medos
ninando teus sonhos como você faz com os meus.
Agasalhar-te, minha pequena, nas noites de frio
até adormeceres em meus braços feito criança de colo.
Fazer-te esquecer das incertezas do futuro,
do mesmo modo como me distraias contando histórias
de tua paixão alucinada pelo gênios da literatura.
Desde cedo, destes-me a poesia como secreta confidente.
Agora, quem me dera bordar em teu rosto um riso largo
como aquele com que me recebes em casa após minhas constantes partidas.
E, por fim, acender-te ainda mais o olhar de mulher realizada
como iluminas o meu nas horas mais difíceis.
Oh minha mãezinha, pudera eu homenagear-te como merecestes.
Cá entre nós, deixo meu singelo recado.
Meu canto mais forte, minha rima mais genuinamente emotiva:
Que saudade eu sinto de você aqui.




 [A autora compartilha também a música que está tocando pela enésima vez em sua tarde: o clássico "Blowin'In The Wind" de Bob Dylan. Essa é a canção preferida da minha mãe, tanto que posso até imaginar a cena dela cantando enquanto lavamos a louça do almoço de domingo.]

sábado, 28 de abril de 2012

Gula

O amor é cheio de excentricidades.
Um bocejo de desculpas antecipadas e instantâneas.
Na boca do estômago raros sorrisos doces e tristes
e um sono levíssimo.
Desperta aos mínimos sussurros
para a assaltar, em segredo,
a calórica geladeira dos desejos.

domingo, 22 de abril de 2012

Dor fantasma

Disse a ciência está dito.
Eu é que não me arrisco a ser "do-contra”.
“Quando alguém sofre uma amputação, 
a parte amputada ainda existe no seu mapa mental”
Disse o enfático médico cheio de razão.
“Mesmo quando os olhos não veem, o cérebro sente”
Declamou o poeta cheio de emoção.
Eu, que nunca amputei um braço ou uma perna,
mas já perdi incontáveis partes de mim,
vivo sentindo uma coceirinha pelas pessoas que já se foram
porque passaram a morar longe,
ou porque morreram de desastre,
ou simplesmente se cansaram de mim.

domingo, 8 de abril de 2012

Nonsense

Alívio seria se você se mudasse de mim
ou se viesse de novo repetir o que foi bom.
Entre tetos, aconchegos e abrigos
até o dia nos amanhecer amigos.

[A autora, numa manhã nonsense de páscoa, brincando com a definição do poeta Mário Quintana: “Amor é quando a gente mora um no outro.” ]

segunda-feira, 12 de março de 2012

E-mail

     Sabe que eu nem me reconheço mais. Depois de algum tempo e poucas horas de Blues aprendi a amadurecer para fora. Dei autonomia para a discordância e abandonei os títulos, as nomenclaturas. Nessa altura da vida nenhuma vertente literária é capaz de salvar o poema do abismo nem consolá-lo da desilusão amorosa. Preferi estabelecer um novo eu e decidi aperfeiçoar minha crítica de mundo. Prestei atenção na experiência de que é conversar. 
     Deixei a vida passar, critiquei e superei dando um passo além. Talvez outro dia volte dois passos atrás e pense melhor, mas penso... Prefiro assim: não alugar molduras, não fugir das angústias, não esconder a bagunça da casa nem tampouco as indecisões do futuro. 
     Reconheci minhas inseguranças e nem por isso me diminuí. Vi a caixa de e-mail vazia, escutei a chuva suave pela janela, preparei a mesa do jantar para ninguém e nem me incomodei como antes. Fui mais gente que poeta.