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sábado, 9 de abril de 2011

Os tons da tragédia no RJ e nós

     Há cerca de três dias fomos assaltados pela notícia de um agressor que entrou em uma escola no bairro de Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, e executou sumariamente  doze crianças em suas salas de aula. 
     Eu gostaria de entender os acontecimentos. Não falo de respostas para perguntas banais. Para isso, já basta a imprensa especulativa movida por aquele sensacionalismo mórbido que costumamos ver em ocasiões como essa. Penso sim na possibilidade de descobrir um jeito capaz de consolar as mães das vítimas e, se fosse possível, restituir vida aos corpos franzinos brutalmente assassinados. 
     Eu gostaria que meninos não morressem antes da hora. Que mães não tivessem que inverter a ordem natural da vida sepultando seus filhos, seja as crianças mortas na barbárie de Realengo ou os jovens que compõe as estatísticas frias das páginas policiais vitimados diariamente pelos acidentes de trânsito ou pelo tráfico de drogas no Brasil.
     Queria que todos nós desejássemos coletivamente o sonho de concretizar uma escola, ao mesmo tempo, encantada e possível. Lugar em que prevalecesse o respeito às diferenças, que a liberdade ganhasse asas vigorosas e se educasse para o amor. E, acordados, víssemos uma multidão de pessoas dispostas que, consternadas com a brutalidade dos fatos recentes, tivessem a atitude corajosa de repudiar a violência estampada nos jornais multiplicando gestos anônimos de ternura e bondade em seu cotidiano.
     Não sei exatamente o motivo, mas ao acompanhar os noticiários dos últimos dias me recordei várias vezes de Pietá e senti vontade de fazer o que seus traços sugerem. A obra esculpida pelas mãos sensíveis de Michelangelo é a imagem da dor materna imensurável, que não se localiza nem se explica com racionalidade. Dores pungentes como a que Pietá retrata são aquelas que nos retiram a fala e nos dificultam as respostas.
     Certamente existe perto de nós alguma tragédia em menores proporções que cabe a nos socorrer. O jovem aparentemente sem motivos que se suicida enforcando-se no banheiro de casa certamente não decidiu se matar da noite para o dia. Ele foi colocando a corda no próprio pescoço de maneira lenta e, de algum modo, quem esteve a sua volta acabou negligenciando sua tristeza. Não tenho dúvida de que a violência em medidas menores que permitimos em nosso cotidiano, seja a agressividade no trabalho, o palavrão que soltamos quando alguém nos fecha no trânsito, as piadas de mau gosto que toleramos, o bullying nas escolas; tudo isso contribui para as grandes tragédias, das quais nos envergonharemos tempos depois. Bem sabiamente o poeta fluminense Eduardo Alves da Costa em “No caminho com Maiakóvski" nos alertou para o risco que corremos:



“[...]
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
[...]”



        Por isso, escolhi para essa noite melancólica de sábado uma reflexão silenciosa e um pouco de  esperança embalada pela belíssima canção "Somewhere Over The Rainbow” de Chet Baker.   Resta saber o que queremos aprender com as tragédias. Que a morte de nossas crianças e jovens não seja em vão, mas nos ajude a amanhecer. 
      Por fim, desejo que trompete do famoso clássico do jazz faça companhia aos seus pensamentos tanto quanto fez aos meus.    



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