quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Sobre amar em tempos de ódio

Leio um poema de Drummond e antes da metade eu já me recordo de você. 
(Aspirante à poeta, professor, admirador de Paulo Freire). 
Abro uma lata de leite condensado e antes da culpa bater me lembro de você.
(Vegano, protetor dos animais, ambientalista).
Tem tanto de você no formato cômico que as nuvens vão tomando no céu e naqueles documentários sobre a origem do universo, placas tectônicas, terremotos e maremotos, história dos dinossauros e dos povos mesopotâmicos.
(Cinéfilo, contra-cultura, tropicalista, hippie).
Tenho a impressão até que você mora em algum daqueles solos de guitarra do rock britânico dos anos 80, numa rádio retro que pouca gente conhece ou no meu quarto quando a luz se apaga, mas o sono não vem.
(Artista, respeitador de lugar de fala, insone).
Toda vez que o tempo muda de repente, nos banhos de chuva imprevistos que a gente leva sem querer, nessas surpresas miúdas que só acontecem no entardecer, no final do plantão tomando o caminho de volta pra casa.

(Distraído, workaholic, endividado).
Sempre quando vejo fumaça saindo do chá de hortelã, na confusão de sentimentos que o agridoce me provoca, quando me atraso porque o despertador não tocou, quando o expediente acaba ou quando falo uma redundância sem perceber.
(Tímido de cabelo bagunçado, classe trabalhadora).

Lembrar é uma forma de resistir ao esquecimento.  
Mentiram pra gente quando nos fizeram acreditar que a gente ama com o coração. 
A gente ama mesmo é com a memória. 
Aquela que temos ou aquela que inventamos para sobreviver aos dias sem nenhum sentido.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Bem-me-quer

Escrevi seu primeiro nome no verso da última pétala da flor do meu querer.
Depois, espremi as letrinhas pra caber um “bem-me-quer” num canto à esquerda. 
Por último, prometi não quebrar a tradição antiga quando o desejo não for uma metáfora qualquer.
Muitos disseram que eu provavelmente esteja dormindo em pé.
Outros, mais amigos, me acharam cansada e gentilmente me aconselharam umas férias.
Tive de explicar educadamente o quão estavam estatisticamente enganados.
É que nunca souberam encontrar entre os inutensílios perdidos:
o castelo de areia erguido na sala de TV,
o beijo que cura a dor nas costas e a enxaqueca do mês,
o poema que dorme no rodapé dos livros de medicina,
o domingo de folga que atravessa as quintas de plantão,
o abraço que vale por uma semana há mais de férias,
a viagem que junta o continente dos sentimentos,
a prescrição que recomenda colo e alivia medos,
o olhar que é comum, mas enxerga em 3D,
o amor que não tem CRM, mas socorre a vida dos perigos dela mesma.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Restos mortais

Quanta gente morre todo dia soterrada por uma avalanche de pragmatismo, asfixiada num vazio sem encaixe, num silêncio infértil, numa dor sem transcendência.
Em tantas delas a chuva caí e escorre impermeável, o vento bate sem envergar ou refrescar.
Vivem como se o mundo fosse trincado por dentro de cima para baixo.
Não dão um passo sequer com o cadarço solto, nem um mísero soluço quando sentem medo.
Morrem com a coluna arqueada, as coronárias entupidas ou por morte natural, sem compreender, no entanto, que a vida é um dom que se concede aos que subtraem da felicidade o detalhe que a maioria não repara enquanto vive.

domingo, 17 de julho de 2016

Centro da cidade

Tenho em mim a saudade mais forte do perímetro urbano.
Temo não caber nesse frágil coração um sorriso largo,
que combine com a amplitude do teu peito destemido nas ladeiras do mundo.
Continuo temendo os passos em falso, o revolto mar, a sutura sem anestesia,
a instabilidade do solo, a economia das algibeiras, a insônia sem companhia,
os estilhaços dos vitrais, as frases sem concordância, as almas sem discordância.
Mas um dia ainda hei de agradecer por cada rima tímida escondida nas gavetas,
pela saliva cicatrizante de teus lábios, o unguento com cheiro hortelã de tua pele,
o silêncio do teu caos, o clarão do teu breu, as luzes enluaradas do teu céu.
Por acenderes a lareira dos sonhos e desviares a rota geométrica das certezas
até eu encontrar novo rumo, no centro de mim, desaprumo.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Um carnaval que dure o ano inteiro

       Escuta só... Fevereiro mal começou e o ano já está esquisito. A luz entra pelas rachaduras de sempre e, entre uma falha e outra, sempre se espera uma iluminação qualquer. As cores do verão ainda insistem em atravessar as vidraças barrocas da melancolia. Quanta ilusão, pois já de antemão se sabe que no final da história nem Pierrot nem Colombina alcançarão redenção. Tarde demais porque a essa hora tudo é carnaval. Metade dançando, folia, suor e cerveja. A outra metade dormindo, limpando a pólvora das armas, morrendo.
       Uma mãe acaba de medicar seu bebê por causa de uma febre sem causa. João dá um copo de água gelada para matar a sede do amigo na construção do prédio aqui do lado. Enquanto uma árvore frondosa cai na Amazônia, uma criança nasce a plenos pulmões. Enquanto Clara completa 36 horas seguidas de plantão, Mário namora há 5 anos através de uma webcam. E você? Tem sede de quê? Qual o protetor da sua pele? Qual seu samba favorito? Qual das suas cicatrizes te ocupa mais tempo? Quanto de entrega há por trás dos seus beijos? Você muda o compasso da música ou contenta-se com um “dois pra lá, dois pra cá”?
       O nosso bloco sai depois das duas da tarde. Faça chuva ou faça sol. Partiremos da cidade baixa, atrás da antena de rádio no subúrbio da tristeza, na esquina da rua dos desiludidos com a avenida dos insurgentes. Vem de cara limpa e de pijama mesmo, mas não deixa de vir. Passaremos sem credenciais, escondidos da polícia, pelo circuito subterrâneo do amor. Convite preferencial para os foliões fora de forma, os desajeitados que atravessam o samba, os atrasados para o desfile, os reprovados de recuperação na vida. É o convite mais sério que eu já fiz até hoje. Escuta com o coração: posso te esperar para um carnaval que dure o ano inteiro?