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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Comédia romântica

    Vivo sem canto e sem muitas esperanças de primavera. Nem a ciranda do tempo acenando a chegada da estação das flores faz a alegria renascer. A porta entreaberta não suspende o desejo de ficar.
     Respondo sem palavras. Demoro a acontecer. A vida em medidas exageradas amarga no fim, mas o tempo também bem é cruel em ensinar que não perdoa meus medos.
     Optamos pelo ferimento doendo e suas insinuantes recordações. É claro que sempre tivemos cara de tragédia, de anéis simplórios, de bijuterias de esquina, de brigas sem motivo, de longas conversas madrugada afora e roupa retro.
     Agora os silêncios são rompidos apenas por um suspiro incompreensível. Um olhar de culpa do que não fizemos por nós. A difícil tarefa de refazer o que sobrou. Agora eu não preciso mais implicar com sua roupa nem ouvir reclamações da minha falta de tempo para você. Nenhum telefonema às três da manhã para dizer que sonhava comigo.
     Somos assim, meio heróicos, meio prosaicos. Nosso maior charme, nosso pior defeito.
    Sempre na medida incerta de Drummond. Com uma boa dose de poesia e outra de humor.
    O bilhete na geladeira guarda versos consagrados que ainda não consegui decifrar. Definitivamente não parece uma estratégia de quem quer sair de cena.

“E o amor sempre nessa toada
briga perdoa perdoa briga
não se deve xingar a vida,
a gente vive depois esquece.
Só o amor volta para brigar,
para perdoar,
amor cachorro bandido trem.”
Carlos Drummond de Andrade

      Segundo Ato. Palco vazio. Apagaram-se as luzes. Volto amanhã para saber o final dessa história...